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Comida di Buteco 2026: o festival que transformou o petisco mineiro em fenômeno nacional

Por gastronomizaê 14 de abril de 2026
Comida di Buteco 2026: o festival que transformou o petisco mineiro em fenômeno nacional

Comida di Buteco 2026: o festival que transformou o petisco mineiro em fenômeno nacional

Vinte e sete anos depois da primeira edição, o festival que nasceu numa discussão de bar ainda sabe o que está celebrando

Por gastronomizaê · Belo Horizonte, MG · 2026-04-14

Em 1999, um grupo de jornalistas e empresários se reuniu num boteco do bairro Lourdes, em Belo Horizonte, para discutir como valorizar a cultura do petisco mineiro. A ideia que emergiu dessa conversa era simples: organizar uma competição entre botecos, com um petisco exclusivo criado para o festival e avaliado pelo público. O festival se chamaria Comida di Buteco.

Vinte e sete anos depois, o Comida di Buteco é um dos maiores festivais gastronômicos do Brasil — presente em mais de vinte cidades, mobilizando mais de trezentos botecos anualmente, e tendo lançado ao longo de sua história centenas de petiscos que migraram dos cardápios competitivos para as listas permanentes.

A edição de 2026, que acontece em abril em Belo Horizonte, tem 62 botecos participantes na capital e um tema que conversa diretamente com o que está acontecendo na gastronomia brasileira mais ampla: “Do interior para a mesa” — petiscos que celebram ingredientes do interior mineiro, dos queijos de altitude às carnes de produtores locais, das cachaças artesanais às conservas tradicionais.

Como funciona

Cada bar participante cria um petisco exclusivo para o festival, que deve servir entre duas e quatro pessoas, acompanhado de uma bebida especificada. O petisco é avaliado por um júri de críticos e por voto popular: os clientes que visitam o estabelecimento durante o festival recebem uma ficha de avaliação e pontuam o petisco em critérios como sabor, apresentação e harmonia com a bebida.

O resultado é que a qualidade sobe sistematicamente. Botecos que nunca haviam pensado em harmonia entre petisco e bebida passam a desenvolver esse raciocínio durante os meses de preparação. Cozinheiros que nunca tinham saído do cardápio de décadas se veem forçados a criar algo novo — e muitas vezes descobrem que têm mais inventividade do que supunham.

Os destaques da edição 2026

Bar do Alemão, Funcionários: o petisco do Alemão para 2026 é um “Bolinho de Queijo da Canastra com Carne Seca do Sertão e Molho de Pimenta Dedo-de-Moça” — combinação que soa clássica até você provar, perceber que o queijo foi curado por quarenta dias, que a carne seca foi dessalgada em água de pedra-sintra e que o molho de pimenta foi fermentado por duas semanas. Os ingredientes são os de sempre; o tratamento é de quem passou os últimos três meses pesquisando a origem de cada um.

Boteco do Lúcio, Serrano: Lúcio Fonseca, que administra o boteco há trinta anos, não é homem de modismos. Seu petisco de 2026 é simples na descrição — “Torresmo de Barriga com Manteiga de Garrafa e Flor de Sal do Cerrado” — e absolutamente preciso na execução. A manteiga de garrafa vem de uma família de Brumadinho que ele visita duas vezes por ano. O flor de sal é produzido por uma cooperativa do Alto Paranaíba que descobriu processos de salicultura adaptados ao Cerrado. O torresmo é o mesmo de sempre — e é impecável.

Bar do Coxo, Santa Tereza: A aposta do Coxo é arriscada: “Ceviche Mineiro de Pintado do Rio São Francisco com Leite de Castanha-do-Pará e Tucumã de Goiás”. A fusão deveria soar forçada. Na prática, o pescador do São Francisco é o mesmo há doze anos, o pintado chega vivo e sai servido em duas horas, e o resultado é um prato que só poderia existir no Brasil Central — a acidez do ceviche, a gordura vegetal da castanha, o caráter defumado suave do tucumã. Uma cozinha que olha para dentro do país.

O que o festival revela sobre BH

O Comida di Buteco é um espelho particular de Belo Horizonte. Ele valoriza o artesanal sem romantizar a pobreza, celebra a tradição sem imobilizá-la, e democratiza a discussão sobre gastronomia num formato que não pede formação especializada para participar.

Em cidades com cultura gastronômica mais elitizada, um festival desse tipo seria capturado por restaurantes de chef e perderia o DNA de boteco em dois ou três edições. Em BH, o festival resiste: o regulamento proíbe estabelecimentos sem serviço de mesa em calçada, sem chope de barril, sem cardápio fixo. Isso garante que o que está sendo julgado é genuinamente um boteco — não um bistrô disfarçado com cartaz de festival.

“O Comida di Buteco não é sobre o melhor petisco. É sobre o melhor petisco de boteco. Essa distinção é tudo.”

— Arquivo de entrevistas do festival, 2015

O que vai além de BH

As edições do festival em outras cidades revelam algo interessante: em cada lugar, o DNA local aparece com força. No Recife, os petiscos tendem à fritura de frutos do mar e à especiaria nordestina. Em Porto Alegre, ao charque e ao chimarrão integrado como ingrediente. Em São Paulo, à diversidade étnica que a cidade acumula.

Mas nenhuma outra cidade tem a relação que BH tem com o conceito de boteco como instituição. Em nenhuma outra cidade o festival parece tão naturalmente em casa.

Talvez seja porque em BH o boteco não é uma escolha de programa — é o programa principal.

Como participar

O festival acontece simultaneamente em todas as cidades participantes em abril. Em BH, o mapa completo dos botecos participantes está disponível no site oficial do festival. Os clientes votam no local ao pagar a conta. O resultado final é apurado em cerimônia no fim do mês.

Para quem visita BH especificamente para o festival: três botecos por tarde é o limite razoável para manter discernimento. Mais do que isso, o petisco começa a provar igual ao anterior — e isso seria um desperdício.

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