Política de crítica
Como criticamos restaurantes
Crítica gastronômica só vale o que vale o método por trás dela. Tudo aqui é regra dura: nenhuma crítica é publicada sem cumprir os itens abaixo.
1. Visita anônima
Toda crítica com nota é fruto de visita feita sem identificar o veículo ou o autor. Reservamos com nome civil que não pertence à equipe editorial pública, chegamos como qualquer cliente, somos atendidos como qualquer cliente.
Identificamos-nos apenas em duas situações:
- Quando precisamos checar dados factuais com a casa após a visita (ingrediente, origem, equipe, preço de cardápio fixo).
- Quando o estabelecimento, por iniciativa própria, identifica-nos durante a visita — caso raro, registrado no artigo.
2. A conta é sempre nossa
O gastronomizaê paga 100% do consumo em toda visita de crítica. Não aceitamos:
- Cortesia integral ou parcial.
- Pratos extras enviados pela cozinha como "presente do chef" sem cobrança.
- Convites para jantares de imprensa, lançamentos de cardápio ou eventos pagos pela casa.
Quando um prato extra chega à mesa sem ter sido pedido, registramos no artigo e pagamos por ele se permanecer na conta. Se a casa retira da conta apesar do nosso pedido para incluir, o fato é registrado no artigo e pode pesar na avaliação.
3. Mínimo de visitas
| Nota provável | Mínimo de visitas |
|---|---|
| Até 4,0 facas | 2 visitas |
| 4,5 facas | 3 visitas |
| 5,0 facas | 3 visitas em janelas distintas (ex.: dia útil + fim de semana + época diferente do ano) |
Visitas são feitas com intervalo, em dias e horários variados sempre que possível, e com pratos diferentes — a soma cobre cardápio executivo, à la carte, sobremesa e bebida.
4. Sem press trips
Não viajamos para cobrir restaurantes ou destinos com passagem, hospedagem ou refeição pagas pelo destino, pelo restaurante, por marca patrocinadora, por assessoria ou por terceiros com interesse na cobertura.
Toda viagem de crítica é paga pelo veículo.
5. A escala — 5 facas
Trabalhamos com 5 facas, com meias-facas, em 9 níveis efetivos.
| Faixa | O que significa | Frequência |
|---|---|---|
| 5,0 | Referência. Define um gênero. Vale viagem internacional. | Raríssimo (≤2/ano). |
| 4,5 | Imperdível. Excelência consistente em todas as dimensões. | Poucos por ano. |
| 4,0 | Excelente. Vale viagem nacional. | Comum em crítica positiva. |
| 3,5 | Muito bom. Vale visita planejada na cidade. | Comum. |
| 3,0 | Bom. Cumpre o que se propõe a fazer. | Comum. |
| 2,5 | Regular. Tem méritos e ressalvas claras. | Eventual. |
| 2,0 | Abaixo do esperado para o que cobra ou promete. | Eventual — publica se há valor jornalístico. |
| 1,5 | Falho. Problemas estruturais (cozinha, serviço, higiene, segurança). | Raro — só com valor de alerta público. |
| 1,0 | Não recomendado em qualquer circunstância. | Raríssimo. |
A nota é uma síntese editorial, não uma média aritmética. Ela considera:
- Cozinha — execução, ingrediente, técnica, identidade.
- Serviço — recepção, atenção, conhecimento, ritmo, postura diante de erros.
- Ambiente — conforto, estado de conservação, acústica, mesa, iluminação.
- Custo-benefício — preço diante da entrega e diante de pares na mesma faixa.
- Identidade e relevância — tem o que dizer, ou é mais do mesmo?
O peso de cada dimensão muda com a categoria do estabelecimento (boteco, casual, contemporâneo, alta gastronomia). Um boteco extraordinário pode ganhar 4,5 facas; um restaurante de alta gastronomia que entrega "apenas" o esperado para o preço pode ficar em 3,0.
6. O que não cabe na nota
- Ideologia política do dono da casa, salvo quando ela contamine a operação aberta ao público (ex.: discriminação documentada).
- Trajetória pessoal do chef que não afete a comida na mesa.
- Modas passageiras (estética, redes sociais).
E, do outro lado, não relevamos:
- Higiene precária visível.
- Maus-tratos a equipe presenciados.
- Discriminação a clientes presenciada ou documentada.
- Cobrança indevida.
Esses itens entram no texto e podem derrubar uma nota que seria positiva.
7. Ficha técnica obrigatória
Toda crítica traz, ao final, uma ficha técnica fixa:
Endereço: [rua, nº, bairro, cidade/UF]
Funcionamento: [dias e horários]
Reserva: [como reservar]
Faixa de preço: [$ / $$ / $$$ / $$$$ por pessoa, com cifra de referência]
Pagamento: [meios aceitos]
Acessibilidade: [observações de acesso]
Esta crítica:
Visitas: [número e meses, sem dia exato para preservar anonimato]
Conta paga: [valor total ou faixa]
Pratos avaliados: [lista]
Conflito de interesse: [nenhum / declarar]
A ficha é dado factual, não opinião — e fica congelada na versão original do artigo, mesmo se a nota for revisada depois.
8. Atualização e revisão de notas
- Notas podem ser revistas após 18 meses desde a publicação ou a qualquer momento após mudança comprovada (troca de chef, mudança de conceito, fechamento e reabertura sob nova gestão).
- Revisão é feita com nova rodada de visitas anônimas e conta paga.
- A versão anterior é preservada como nota no artigo, com data.
- Não fazemos revisão a pedido do estabelecimento.
9. Direito de resposta
Casa criticada tem direito de resposta, na forma descrita em /metodo. Resposta não altera o texto original e é linkada em nota visível.
10. Crítica × reportagem × perfil × guia
| Formato | Tem nota? | Visita anônima? | Conta paga? |
|---|---|---|---|
| Crítica | Sim, em facas | Sim | Sim |
| Reportagem | Não | Não obrigatório | Sim |
| Perfil | Não | Não obrigatório | Sim |
| Guia | Pode ter ranking, sem nota individual | Recomendado | Sim |
Reportagem, perfil e guia podem mencionar restaurantes elogiosamente — mas nota em facas só sai sob crítica formal.
11. O que não publicamos
- Crítica baseada em uma única visita de almoço executivo.
- Crítica de casa onde o autor tem qualquer relação societária, familiar ou afetiva sem rotação de autoria.
- Crítica encomendada por terceiros.
- Crítica com base em refeição de cortesia, press trip ou jantar de inauguração.
Quando um restaurante nos interessa mas ainda não cumprimos as visitas mínimas, ele entra em Na Mira como observação — sem nota.
12. Cobertura de marcas — Cafés em Cápsulas e correlatos
A editoria Cafés em Cápsulas cobre marcas comerciais (Nespresso, Illy, L'OR, Três Corações, entre outras) com foco jornalístico — reportagem, ensaio, receita autoral, análise de campanha. As regras dela são mais rígidas, não mais frouxas, do que as da crítica de restaurante:
- Sem patrocínio. Nenhuma matéria da seção é paga, encomendada ou negociada com marca, agência ou representante.
- Sem cortesia. Cápsulas, máquinas, kits e produtos analisados são adquiridos pelo veículo no varejo. Quando recebemos amostra não solicitada por correio, ela é devolvida ou doada — e o fato é registrado se afetar a cobertura.
- Sem press trip. A regra do item 4 vale também aqui — viagem a fazenda de origem, fábrica ou evento de marca só com despesa paga pelo veículo, mesmo se houver convite aberto.
- Sem nota em facas. A escala de 5 facas é exclusiva de crítica de restaurante. Matérias da seção podem comparar, recomendar, criticar produtos — mas sem ranking numérico, porque o objeto (produto industrial de larga escala) não comporta o mesmo método de avaliação.
- Disclosure obrigatório. Toda matéria carrega, em rodapé fixo, o aviso de transparência editorial linkando esta seção.
A lógica é a mesma da crítica: credibilidade só existe quando o leitor sabe o que está comprando ao ler. Cobertura de marcas é tema legítimo para o jornalismo gastronômico — desde que a marca não tenha pago a edição.