Dez Anos de Taste: Como São Paulo Aprendeu a Comer
Os festivais gastronômicos transformaram a capital em uma grande escola de paladar — e não foi por acaso
Por gastronomizaê · 2026-05-21
Lembro do primeiro Taste São Paulo como quem lembra de um primeiro encontro: havia expectativa no ar, um certo nervosismo, e a sensação de que algo importante estava prestes a acontecer. Dez anos depois, o festival que abriu a temporada paulistana com seus chefs estrelados e clima efervescente se consolidou como muito mais que um evento — virou uma escola.
E que escola. Durante três dias no Jockey Club, a capital se transforma em uma universidade gastronômica a céu aberto, onde o diploma é uma barriga satisfeita e o conhecimento se mede em garfadas. Ali, o paulistano médio — aquele que conhecia haute cuisine apenas por ouvir falar — descobre que um risotto pode ter texturas que nunca imaginou, que existe vida além do salmão grelhado e que, sim, é possível pagar quarenta reais por uma porção minúscula e sair feliz da vida.
O fenômeno não é pequeno. Nos últimos anos, eventos como o Taste, o Mesa SP e dezenas de outros festivais menores criaram uma geração de comensais mais curiosos, mais exigentes e, paradoxalmente, mais democráticos. O mesmo paulistano que experimenta uma criação de Alex Atala no sábado não torce mais o nariz para a técnica refinada do japonês da esquina na segunda-feira.
“Os festivais quebraram a barreira psicológica entre o cliente e a alta gastronomia”, observa uma chef que participou de todas as edições do Taste. “Antes, as pessoas achavam que precisavam de um manual de instruções para entrar nos nossos restaurantes.”
Essa democratização tem duas faces. Por um lado, chefs que antes dependiam exclusivamente de uma clientela endinheirada ganharam novos públicos — e não raro descobriram que explicar seu trabalho para leigos os tornou cozinheiros melhores. Por outro, uma legião de novos talentos encontrou nos festivais o palco ideal para se apresentar à cidade, sem precisar do investimento estratosférico de um restaurante próprio.
O resultado é uma São Paulo gastronômica mais madura, onde a experimentação convive com a tradição, onde food trucks dividem prêmios com restaurantes centenários, e onde o público aprendeu a valorizar tanto a técnica quanto o sabor. Não por acaso, a cidade virou referência latino-americana em gastronomia justamente na década em que esses festivais se multiplicaram.
Claro, nem tudo são flores nesse jardim gastronômico. A proliferação de eventos criou uma certa saturação — há fins de semana em que o paulistano precisa escolher entre três festivais diferentes, como quem escolhe entre canais de TV. E a fórmula, repetida à exaustão, às vezes perde o frescor: mesmo estande, mesma música ambiente, mesmos discursos sobre “valorização da gastronomia brasileira”.
Mas dez anos depois, o saldo é positivo. O Taste e seus irmãos gastronômicos criaram uma massa crítica de comedores informados, ajudaram a projetar dezenas de talentos e, de quebra, provaram que São Paulo tem apetite — e estômago — para se consolidar como uma das capitais gastronômicas mundiais.
Que venham os próximos dez anos. Com essa fome toda, a cidade está preparada para qualquer banquete.