Drinks enlatados de Minas Gerais: como BH virou a capital nacional do RTD
Do bloco de Carnaval ao mercado nacional — a história de como uma geração de empreendedores mineiros transformou a latinha num produto cultural
Por gastronomizaê · Belo Horizonte, MG · 2026-04-21
Em 2016, dois universitários de Belo Horizonte começaram a vender um drink de chá-mate com rum e limão em galão nas festas da cidade. Não havia estratégia de marca, não havia business plan, não havia deck de apresentação para investidores. Havia um sabor que as pessoas queriam repetir e uma cidade com Carnaval de rua suficientemente grande para testar, escalar e errar.
Dez anos depois, o Grupo Xeque Mate Bebidas produz 25 milhões de latas por ano, está presente em mais de 200 cidades e abriu um mercado que não existia. Mas a história mais interessante não é a do Xeque Mate em si — é o ecossistema que ele ajudou a criar. Hoje, Belo Horizonte concentra mais marcas de drinks prontos em lata por metro quadrado do que qualquer outra cidade do Brasil, e cada uma delas tem uma história que começa no mesmo lugar: um bloco de rua, um Carnaval e um produto que alguém achou que podia fazer melhor.
O que é o movimento RTD mineiro e por que ele importa
RTD — Ready-to-Drink — é a categoria de bebidas alcoólicas que chegam prontas ao consumidor, sem necessidade de mistura. Não é novidade: coolers e ice existem há décadas no Brasil. O que é novo é a camada artesanal que Minas trouxe para o formato: drinks com identidade de marca, ingredientes com história, narrativa de qualidade e público que paga mais porque entende o que está comprando.
A categoria cresceu mais de 60% no Brasil nos últimos anos, segundo dados da Nielsen Scantrack — crescimento muito superior ao da cerveja no mesmo período. O mercado global de RTDs, segundo estimativas da Euromonitor e IWSR, movimenta centenas de bilhões de dólares anuais, com crescimento projetado entre 4,5% e 6% ao ano até o final da década.
Minas se destaca nesse contexto por uma razão estrutural: o estado já tinha base. Com pelo menos 845 produtores de bebidas alcoólicas — cachaças de alambique, cervejas artesanais, vinhos de inverno — a migração para drinks em lata encontrou infraestrutura, conhecimento técnico e cultura do produto artesanal já instalados. O Carnaval de rua de BH funcionou como laboratório: volume, diversidade de público e tolerância ao erro que permitiu a cada marca encontrar seu produto antes de investir em escala.
Como o Xeque Mate criou um mercado do zero
A trajetória do Xeque Mate é o arco mais limpo do movimento. Em 2016, dois amigos mineiros começaram vendendo o drink em galão nas ruas e festas independentes de BH. A fórmula era simples — chá-mate, rum, limão e guaraná — mas o sabor tinha algo que as bebidas industriais não tinham: especificidade. Não era genérico. Era um drink com personalidade que você associava à experiência de estar num bloco de BH.
A formalização veio gradualmente. O Grupo Xeque Mate Bebidas foi constituído com o CEO Alex Freire liderando a profissionalização, e a transição para a latinha aconteceu na segunda metade da década de 2010 — envase em escala industrial na região metropolitana de BH para atender a demanda do Carnaval e depois do varejo permanente.
Os números de 2024 resumem o que foi construído: 25 milhões de latas produzidas, presença em mais de 200 cidades, pontos de venda em BH e interior de Minas e expansão para São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Goiás e Santa Catarina. O grupo foi além da latinha original e hoje opera um ecossistema que inclui bares próprios, linha de vestuário e as Mascate Drinks — sub-linha com whisky e limão, gin com gengibre, rum com mate — com mais de 1 milhão de litros produzidos só para o Carnaval 2026.
O Xeque Mate não é apenas uma marca de bebida. É a prova de conceito que validou um modelo para todos que vieram depois.
A Equilibrista: Gingibre, Rubra e a segunda onda
Se o Xeque Mate é a marca que abriu o mercado, a A Equilibrista é a marca que provou que o mercado tinha profundidade.
A empresa surgiu em meados da década de 2010 em Belo Horizonte com uma proposta diferente da do Xeque Mate: drinks com perfil mais próximo dos coquetéis de bar do que das bebidas de bloco. O Gingibre — gin, gengibre, limão e mel — foi lançado em 2018 em barril para eventos e chegou à lata em 2020. O timing foi preciso: a pandemia acelerou o consumo de bebidas prontas para casa e a retomada dos eventos de rua em 2022 trouxe o consumidor de volta com o hábito formado.
A Rubra chegou como extensão da filosofia: um soft bitter gaseificado, com teor de aproximadamente 7,9–8%, 355 ml, sabor entre o doce e o amargo com toque de laranja. A referência não declarada são os aperitivos italianos — Aperol, Campari — mas com identidade regional e linguagem de bar de BH. Não é importação de conceito; é adaptação consciente.
Para o Carnaval 2025, a Equilibrista projetou vendas de meio milhão de latas — número que posiciona a empresa entre as maiores do segmento artesanal no país. O portfólio inclui ainda Veneta, Chablauzin e rótulos sazonais, todos dentro da mesma lógica: drink com identidade de lugar e momento.
Lambe Lambe: quando a fermentação vira bebida de boteco
O Lambe Lambe começou de um lugar diferente dos outros. Fundado em 2020 em BH pelos mestres cervejeiros Édson Segundo e Peter Bresser, a marca não partiu da tradição dos destilados nem da caipirinha — partiu da fermentação. Os produtos são drinks naturais frisantes elaborados com frutas, sementes e especiarias, fermentados artesanalmente, sem glúten, com aproximadamente 35 kcal por 100 ml.
Os sabores são autorais: tangerina com limão e sal (uma releitura de margarita/caipirinha), pitaya com maracujá e alecrim, manga com abacaxi e gengibre, uva com frutas vermelhas e missô. Não há nada na prateleira de RTD industrial que se pareça com isso — e é esse o argumento. O Lambe Lambe não compete com a Xeque Mate nem com a Rubra; ocupa uma categoria que criou ao inventar o próprio produto.
Em três anos de operação, a marca estava presente em mais de 250 pontos em BH — incluindo casas de samba e as próprias Fermentarias no Mercado Novo, Galeria São Vicente e Savassi — e expandiu para São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e Espírito Santo.
O crescimento ganhou impulso adicional em 2025, quando a chamada “crise do metanol” — casos de intoxicação por bebidas adulteradas que circularam nas redes — gerou desconfiança generalizada em bebidas de origem desconhecida e impulsionou vendas de marcas com reputação estabelecida e rastreabilidade verificável. O Lambe Lambe registrou aumento imediato de vendas, especialmente em São Paulo e BH. O mercado informal perdeu; o artesanal com marca ganhou.
Salinas entra na lata: cachaça artesanal como RTD
Salinas, no norte de Minas Gerais, é a capital nacional da cachaça artesanal. Com cerca de 50 alambiques ativos, 25 deles com Indicação Geográfica reconhecida pelo INPI, e o Festival Mundial da Cachaça desde 2002, a cidade construiu uma reputação que vai muito além do estado.
A entrada de Salinas no mercado RTD foi inevitável — e faz sentido estratégico perfeito. Marcas como Salicaip e Caipi Minas usam cachaça de Salinas como base declarada em caipirinhas gaseificadas enlatadas: limão, tangerina, banana com jambu. O argumento não é apenas de sabor — é de procedência. Quando a lata diz “cachaça de Salinas”, está usando a mesma narrativa de terroir que o Queijo Canastra usa para diferenciar o artesanal do industrial.
A Caipi Minas, com seus 7% de álcool e 355 ml, posiciona-se explicitamente como “origem Salinas” — conectando o consumidor de festival de rua à tradição de alambique que a cidade representa. A lata vira portal de entrada para um universo que a maioria do público de Carnaval não conhecia.
É a mesma operação que os vinhos do Vale dos Vinhedos fizeram com a Indicação Geográfica: usar a credencial de origem para sair do mercado genérico e criar uma categoria própria com preço e narrativa diferentes.
Por que BH e não outra cidade
A pergunta legítima é: por que isso não aconteceu em São Paulo, que tem mercado maior, ou no Rio, que tem Carnaval comparável?
A resposta tem três componentes.
Base artesanal preexistente. Minas chegou ao boom de RTDs com 845 produtores de bebidas alcoólicas artesanais já operando — cachaças, cervejas, vinhos. O conhecimento técnico de fermentação, destilação e envase estava distribuído pelo estado de uma forma que São Paulo (mais concentrado em grandes indústrias) e Rio (com base menor de produção artesanal) não tinham.
Carnaval de rua como laboratório. O Carnaval de BH tem uma escala e uma informalidade que permite testar produtos a custo baixo e com feedback imediato. Dois universitários com um galão de mate e rum conseguem descobrir se têm um produto em quarenta e oito horas de bloco. Esse laboratório não existe da mesma forma em outros contextos.
Cultura de boteco que aceita novidade. O boteco mineiro tem uma abertura para produto novo que não é óbvia. O mesmo público que bebe chopp há trinta anos está disposto a experimentar uma lata de soft bitter artesanal se alguém que ele confia colocar na mesa. A fidelidade do boteco carioca é mais difícil de penetrar; a mineira é leal mas curiosa.
O que vem a seguir
A Forbes Brasil chamou BH de “capital de inovação etílica em lata no Brasil” em fevereiro de 2026. Não é elogio vazio — é diagnóstico de um fenômeno que, como todos os fenômenos culturais que começam em Minas, está saindo devagar para o resto do país e chegando para ficar.
O próximo capítulo é a internacionalização. O Xeque Mate já fez movimentos de exportação exploratória. O Lambe Lambe, com seus drinks fermentados sem glúten e baixa caloria, tem perfil que conversa com tendências europeias de wellness alcoólico. A Rubra, como aperitivo contemporâneo com identidade regional, tem argumento para ocupar o espaço que os aperitivos italianos dominam nas mesas europeias — com narrativa brasileira.
A latinha que começou num galão de Carnaval em 2016 tem, dez anos depois, ambições que seus criadores provavelmente não imaginavam naquele bloco de BH. Isso é exatamente o tipo de história que Minas Gerais gosta de contar — devagar, no tempo certo, com sabor que você não esquece.