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Nelita abre as portas da América do Sul

Por gastronomizaê 26 de abril de 2026 ⏱ 3 min de leitura
Nelita abre as portas da América do Sul

Nelita abre as portas da América do Sul

Tássia Magalhães convoca chefs do continente para reescrever a gramática da cozinha latina em São Paulo

Por gastronomizaê · 2026-04-26

O aroma de tucumã queimado encontra a acidez do chuchu fermentado enquanto facas cortam peixe em ritmos distintos — cada chef carrega nas mãos a memória gustativa de sua terra. No Nelita, restaurante que já se estabeleceu como embaixada da cozinha brasileira contemporânea, Tássia Magalhães orquestra uma conversa culinária que transcende fronteiras: o Festejo Latino reúne talentos de toda a América do Sul para uma celebração que ressignifica nossa identidade gastronômica.

A iniciativa não surge por acaso. São Paulo testemunha, nos últimos anos, uma revolução silenciosa em seus fogões. Chefs peruanos desembarcam com técnicas de ceviche que se casam com peixes da nossa costa. Colombianos trazem o conhecimento ancestral de fermentações que dialogam com a tradição mineira de conservas. Argentinos compartilham o domínio das brasas que encontra eco no churrasco gaúcho, mas também na parrilla urbana que ganha espaço nos bistrôs paulistanos.

“A cozinha latino-americana sempre foi uma só, fragmentada apenas por questões políticas. Agora estamos religando esses fios”, explica Tássia, enquanto degusta uma preparação que combina quinoa boliviana com farofa de castanha-do-pará.

O movimento reflete uma maturidade da cena gastronômica local que vai além da importação de técnicas. Trata-se de uma antropofagia culinária consciente: deglutir influências externas para criar algo genuinamente novo. No cardápio do evento, ingredientes amazônicos encontram preparos andinos, temperos caribenhos se harmonizam com produtos do Cerrado, criando um mapa gastronômico que redesenha a geografia do sabor.

Esta integração não acontece apenas no Nelita. Percorre as cozinhas dos mercados municipais, onde venezuelanos vendem arepas ao lado de pastéis de feira. Infiltra-se nos food trucks que servem empanadas argentinas com molho de pimenta biquinho. Estabelece-se nos bares que oferecem pisco sour preparado com cachaça artesanal.

A presença de chefs estrangeiros em São Paulo também provoca uma redescoberta dos nossos próprios ingredientes. O olhar externo enxerga potencial no que consideramos corriqueiro: a moringa nordestina vira protagonista de saladas sofisticadas, o jambu paraense ganha status de erva aromática gourmet, a jabuticaba se transforma em redução para acompanhar carnes nobres.

Tássia Magalhães, com sua trajetória que combina técnica francesa com raízes brasileiras, torna-se a anfitriã perfeita para esta celebração. Sua cozinha no Nelita sempre dialogou com referências múltiplas, criando uma linguagem que fala tanto com o paladar erudito quanto com a memória afetiva popular.

O Festejo Latino revela-se, assim, mais que um evento gastronômico. É um manifesto sobre pertencimento, uma declaração de que somos parte de um continente que compartilha histórias, ingredientes, técnicas e sonhos. Cada prato servido funciona como uma ponte, conectando paladares e culturas que artificialmente se distanciaram.

Em tempos de polarização, a mesa se estabelece como território de encontro. No Nelita, chefs que falam espanhol, português e guarani comunicam-se na língua universal dos sabores, provando que a verdadeira diplomacia acontece entre garfo e faca, entre o primeiro aroma e a última mordida.

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