O Lasai Vai ao Céu: Quando a Altura Muda o Paladar
A mudança do restaurante carioca para o 21º andar do Sofitel Ipanema levanta questões sobre como a geografia afeta a identidade gastronômica
Por gastronomizaê · 2026-05-13
No segundo semestre deste ano, o Lasai deixará suas raízes térrenas no Humaitá para se estabelecer no 21º andar do Sofitel Ipanema. A notícia provocou ondas pelo cenário gastronômico brasileiro — não apenas pela magnitude da mudança, mas pelas questões que ela suscita sobre identidade, território e memória na alta gastronomia.
Rafael Costa e Silva, chef-proprietário do Lasai, construiu sua reputação sobre pilares aparentemente contraditórios com a nova proposta: intimidade, proximidade com fornecedores locais e uma certa rejeição ao espetáculo em favor da substância. O restaurante que conquistou o Brasil com pratos que sussurram em vez de gritar agora se prepara para ocupar um espaço onde o próprio cenário — a vista panorâmica de Ipanema — pode competir com o que acontece no prato.
A questão não é meramente prática, embora os desafios logísticos sejam evidentes. Como manter a frescura dos ingredientes que chegam diariamente da Região Serrana quando se está no 21º andar? Como preservar a atmosfera de proximidade que sempre caracterizou a casa quando o elevador se torna uma barreira física e psicológica entre o comensal e a rua?
Mas o verdadeiro dilema é conceitual. O Lasai sempre foi um restaurante de raiz, literalmente plantado no bairro, com janelas que se abrem para árvores centenárias e uma cozinha que dialoga com o chão onde pisa. Agora, suspenso entre o mar e o céu, precisará redefinir sua relação com o território.
“A mudança física de um restaurante nunca é apenas física. É uma mudança de discurso, de público, de proposta. Por mais que se tente manter a essência, algo inevitavelmente se transforma”, observa a crítica gastronômica Helena Rizzo.
O fenômeno não é inédito. Ao longo da última década, vários restaurantes brasileiros passaram por relocalizações que alteraram não apenas seu endereço, mas sua alma. O DOM, de Alex Atala, manteve sua excelência ao migrar do Jardim Paulista para a região central de São Paulo, mas ganhou ares mais formais. O Oro, no Rio, sofreu adaptações significativas em sua proposta ao se mudar da Lagoa para Ipanema.
Cada mudança conta uma história sobre as pressões econômicas e sociais que moldam a gastronomia brasileira. Terrenos cada vez mais caros, clientela que busca experiências Instagram-friendly, investidores que demandam retornos mais previsíveis. O Lasai, ao aceitar o convite do Sofitel, também aceita essas tensões.
Rafael Costa e Silva não é ingênuo em relação aos desafios. Em entrevistas recentes, demonstra consciência de que precisará equilibrar a sofisticação inerente ao novo espaço com a filosofia que sempre norteou sua cozinha. A proposta inclui adaptações no cardápio que contemplem tanto pratos icônicos quanto criações inéditas, pensadas especificamente para o novo contexto.
A altura, paradoxalmente, pode oferecer uma nova perspectiva sobre a brasilidade que sempre marcou o trabalho do chef. Visto de cima, o Rio se revela em camadas — a praia, os morros, a floresta — que podem inspirar uma cozinha igualmente estratificada, onde cada prato revele uma nova dimensão da cidade.
O risco, evidentemente, é a perda da identidade. Restaurantes de hotel carregam estigmas antigos no Brasil, associados à comida pasteurizada e sem personalidade. Embora essa percepção venha mudando — casos como o Evvai no Hotel Emiliano, em São Paulo, provam que a excelência é possível nesses espaços —, ainda existe resistência do público gastronômico mais exigente.
Para o Lasai, o desafio será manter a honestidade que sempre caracterizou sua cozinha em um ambiente que, por natureza, tende ao espetacular. Como preservar a autenticidade dos sabores quando o próprio cenário se torna protagonista? Como manter preços acessíveis — ou relativamente acessíveis — em uma localização que naturalmente empurra os custos para cima?
A resposta pode estar na maturidade gastronômica que o Rio vem demonstrando nos últimos anos. A cidade aprendeu a valorizar restaurantes pela consistência de sua proposta, não apenas pela pompa de sua apresentação. O público carioca, especialmente o frequentador de alta gastronomia, desenvolveu paladar suficiente para distinguir substância de marketing.
O Lasai no Sofitel representa mais que uma mudança de endereço: é um laboratório sobre o futuro da gastronomia brasileira premium. Pode demonstrar que é possível manter identidade e propósito mesmo quando as circunstâncias mudam radicalmente. Ou pode se tornar mais um exemplo de como a pressão comercial dilui aquilo que torna um restaurante verdadeiramente especial.
Quando as portas se abrirem no segundo semestre, não será apenas um novo capítulo na história do Lasai, mas um teste sobre até onde a gastronomia brasileira pode voar sem perder suas raízes. Do 21º andar, a vista é privilegiada — resta saber se o sabor continuará sendo.