Em Juazeiro do Norte, no Ceará, um cozinheiro que nunca fez estágio europeu serve o melhor sarapatel que já comi. Ele aprendeu com o pai, que aprendeu com a avó, que aprendeu em contexto de necessidade — aproveitando tudo, desperdiçando nada. A técnica existe há gerações antes de qualquer chef francês ter escrito sobre “nose to tail”. O guia Michelin nunca foi a Juazeiro do Norte.
Isso não é crítica ao Michelin — é observação sobre como o reconhecimento gastronômico funciona. Ele segue a infraestrutura: os inspetores vão às cidades com aeroporto direto de Paris, com hotéis de quatro estrelas para ficarem, com jornalistas já presentes para amplificar. O interior do Brasil fica fora dessa rota por razões logísticas que nada têm a ver com o que está sendo cozinhado lá.
O resultado é que temos um mapa gastronômico do Brasil que é geograficamente errado.
Quando a periferia não é subdesenvolvimento
O Mercado da Produção de Caruaru, em Pernambuco, é o maior mercado de alimentos do Nordeste. Na sua parte coberta, barraqueiras cozinham desde as quatro da manhã pratos que definem a identidade alimentar do sertão: buchada de bode, sarapatel, carne de sol com pirão de leite, paçoca de carne seca — a paçoca nordestina, não o doce paulistano.
Nenhuma dessas barraqueiras tem CNPJ de restaurante. Nenhuma figura em nenhuma lista gastronômica relevante. Mas chefs como Rodrigo Oliveira (do Mocotó, São Paulo) visitam Caruaru regularmente não como turismo gastronômico, mas como pesquisa — para aprender técnicas que não existem nos livros.
O interior não é o lugar onde a cozinha brasileira vai buscar inspiração para depois transformar em algo “sofisticado”. O interior é onde a cozinha brasileira vive de maneira mais intensa e menos autoconsciente.
A geração que ficou
O êxodo rural e a centralização das oportunidades nos centros urbanos deveriam ter esvaziado o interior de talentos culinários. Em parte, esvaziaram. Mas uma geração de cozinheiros está deliberadamente escolhendo ficar — ou voltando depois de passar por cidades grandes.
Em Bonito, no Mato Grosso do Sul, uma cozinheira que estagiou em São Paulo voltou para trabalhar com os pantaneiros que sua família conhece há décadas, desenvolvendo uma cozinha de peixes de água doce que não tem paralelo nos menus urbanos. Em Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, um chef está desenvolvendo um menu baseado exclusivamente em ingredientes do Cerrado, numa propriedade que é também reserva ambiental.
Esses projetos raramente chegam às páginas dos veículos gastronômicos nacionais. Ficam nos perfis de Instagram com poucos seguidores, nos relatos de quem foi até lá, nas recomendações boca a boca de outros cozinheiros.
O que a crítica gastronômica deve fazer diferente
O jornalismo gastronômico brasileiro ainda funciona, em sua maioria, como extensão do marketing de restaurantes. O crítico vai ao restaurante que foi inaugurado com assessoria de imprensa, come o menu que foi pensado para impressionar críticos, escreve um texto que será usado pelo restaurante em suas próprias redes sociais.
Esse ciclo tem valor — a crítica de restaurante tem uma função legítima. Mas ele ignora tudo que não está nesse circuito: os mercados, as feiras, as cozinheiras de barraca, os chefs do interior, as técnicas que existem fora das cozinhas com licença de funcionamento.
Crítica gastronômica que só cobre o que tem assessoria de imprensa está cobrindo a ponta do iceberg e chamando isso de panorama.
O que o leitor pode fazer
A resposta prática começa com atenção deslocada do eixo. Na próxima viagem ao interior — Nordeste, Centro-Oeste, Norte — procure ativamente o que não está no roteiro turístico. Pergunte aos moradores onde eles comem. Entre no mercado municipal. Sente no banco da barraca sem toalha de mesa.
Não como exotismo de turista — como reconhecimento de que o mapa que temos não corresponde ao território gastronômico real do Brasil.
O que os guias não chegaram ainda não é menos importante. É, muitas vezes, mais.