Memória

O que os Troisgros mudaram na maneira de comer — de Roanne ao Leblon

Em algum momento da segunda metade dos anos 1960, dois irmãos em Roanne tiraram o prato das mãos do garçom e devolveram à cozinha. O gesto parece pequeno. Mudou o que significa cozinhar em alta gastronomia até hoje.

Por Luiz Lessa 18 de maio de 2026 ⏱ 22 min
O que os Troisgros mudaram na maneira de comer — de Roanne ao Leblon

Em algum momento da segunda metade dos anos 1960, dois irmãos em Roanne tiraram o prato das mãos do garçom e devolveram à cozinha. O gesto parece pequeno. Mudou o que significa cozinhar em alta gastronomia até hoje.

Jean e Pierre Troisgros comandavam o restaurante da família no centro da França — três estrelas Michelin desde 1968, amizade com Paul Bocuse, passagem pela cozinha de Fernand Point antes de Point morrer. Faziam alta cozinha clássica como ela era feita há quase um século: o cliente sentava, o garçom trazia uma travessa, o maître empratava à mesa diante do convive sob o olhar atento de um conhecimento técnico exibido. A apresentação do prato era espetáculo da sala, não da cozinha.

Os Troisgros mudaram isso sem manifesto, sem conferência, sem livro programático. Mudaram em um almoço entre amigos — pelo menos é o que conta uma das versões — em que precisaram servir individualmente um pot-au-feu farto demais para travessa. Foram ao fornecedor de louças, encontraram pratos americanos de 32 centímetros e decidiram montar cada porção na cozinha. O cliente recebeu o prato pronto. A composição visual veio fechada. A sala perdeu o protagonismo do empratamento, e a cozinha o ganhou.

Daí em diante, a alta gastronomia francesa não voltou ao guéridon. E foi por essa porta — não por nenhuma outra — que a Nouvelle Cuisine se instalou.

A revolução silenciosa

A atribuição direta aos Troisgros não é uma reconstrução posterior de historiador. Veio em vida, do contemporâneo mais credenciado para dizer o que dizia. Em setembro de 2020, quando o Le Monde publicou o obituário de Pierre Troisgros — morto aos 92 anos, depois de uma vida inteira sob as três estrelas que jamais perdeu —, o jornalista buscou Michel Guérard, então com 87, criador da cuisine minceur e um dos sete chefs que codificaram a Nouvelle Cuisine. Guérard foi direto:

Ce sont eux qui, les premiers, ont, par exemple, imposé le service à l’assiette. Foram eles que, os primeiros, impuseram o serviço empratado.

Acrescentou uma anedota de testemunha. Adotou a prática viajando até Roanne para pedir permissão aos Troisgros — voltou com doze grandes assiettes de presente. Não há fonte mais primária que essa para um movimento que evitou os holofotes da escrita programática: um dos próprios atores, vivo, narrando à imprensa de referência um episódio em que ele mesmo participou.

Importa, no entanto, distinguir o que foi de fato inovado. Servir uma porção individual em prato individual não era novidade. O service à la russe, introduzido na França pelo embaixador Aleksandr Kurakin entre 1808 e 1812, já previa porções servidas separadamente a cada convive, em substituição ao service à la française — que punha vários pratos simultâneos na mesa, e em que cada convive se servia do que estava ao alcance. Quando os Troisgros aparecem, mais de século e meio passou desde que a porção individual deixou de ser exceção.

O que eles fizeram de inédito foi outro. Transferiram o controle estético do prato da sala para a cozinha. Até ali, montar um prato à frente do cliente era um espetáculo de habilidade técnica do maître, e o chef cozinhava para uma apresentação que seria recomposta por outras mãos. Com o service à l’assiette dos Troisgros, o chef passa a fechar o prato — desenhar a composição visual, decidir as proporções, dispor cor, textura, vazio, gesto — antes que ele saísse da cozinha. O empratamento vira ato autoral. Vira assinatura.

É uma sutileza enorme. Significou que a alta gastronomia francesa começou a tratar o prato como tela. Significou que o chef deixou de ser o técnico que recebia ordens estéticas da tradição e passou a ser também — ou principalmente — o autor visual da experiência. Significou que a cozinha começou a falar diretamente com o cliente, sem o intermediário cortesão do maître. Significou que, em poucos anos, todo o vocabulário visual da haute cuisine seria reescrito: porções menores, vazios calculados, composições assimétricas, cor como argumento. A Nouvelle Cuisine se instala em 1972 e 1973 — quando o Gault & Millau publica os Dez Mandamentos do movimento e proclama os Troisgros o melhor restaurante do mundo — sobre essa base que vinha sendo construída em silêncio na cozinha de Roanne desde a segunda metade dos anos 60.

A oficina de Fernand Point

Para entender por que aqueles dois irmãos chegaram àquela ideia, é preciso voltar uma geração antes, a uma cidade pequena chamada Vienne, trinta quilômetros ao sul de Lyon. Lá, num restaurante de quatro paredes baixas chamado La Pyramide, comandava o chef que talvez tenha sido a figura mais influente da cozinha francesa do pós-guerra: Fernand Point.

Point foi o primeiro a tratar a cozinha como obra autoral no século XX. Era uma figura imensa — peso, presença, gestos largos —, irascível e cordial em proporções iguais. Recebia clientes no salão com uma jaqueta branca impecável e uma garrafa de champanhe na mão. Comprava produtos com obsessão. Só ele decidia o que entrava na despensa. Recusava-se a abreviar técnicas. Defendia que cada molho devia ser feito na hora, cada peixe devia ser cozido sob medida, cada ingrediente devia ser respeitado em sua própria voz. Em meio à França do pós-guerra, em que muitos restaurantes ainda trabalhavam com a inércia do Guide Culinaire de Escoffier — o livro de 1903 que codificou a alta cozinha em fórmulas industriais —, Point era uma exceção que se recusava a abrir mão da feitura artesanal.

Era também um mestre que ensinava à mesa. Aceitava estagiários em sua cozinha pequena, e por La Pyramide passou, nos anos 1950, a geração inteira que viria a fazer a Nouvelle Cuisine vinte anos depois. Paul Bocuse estagiou ali. Alain Chapel, Louis Outhier, os irmãos Jean e Pierre Troisgros — todos eles trabalharam, em momentos distintos, sob os olhos do gigante de Vienne. Foi uma escola informal, sem currículo escrito, em que se aprendia o que Point pensava que era cozinha por meio de fazê-la com ele, dia após dia.

O que se aprendia era um vocabulário. Valorizar o produto sobre a técnica decorativa. Cozinhar o ingrediente até o ponto em que ele revela sua própria natureza, e parar exatamente ali. Recusar o excesso. Servir o suficiente. Tratar a refeição como conversa, não como exibição. Em 1969, quatorze anos depois da morte de Point, sua viúva Marie-Louise publicou Ma Gastronomie — um livro de receitas e aforismos que organizou o que ele tinha ensinado de viva voz. Boa parte do que viria a ser codificada como Nouvelle Cuisine já estava lá, dita com a antecedência de uma geração.

Mas Point não fez o que os Troisgros fariam depois. Em La Pyramide, o serviço continuou ao guéridon — o maître empratava à mesa, com o ritual completo, como mandava a tradição. A inovação técnica do empratamento na cozinha não nasceu sob seus olhos. Nasceu vinte anos depois, em Roanne, na cabeça de dois ex-estagiários que pegaram a filosofia do mestre — valorizar o produto, recusar o excesso, tratar cada prato como decisão autoral — e a empurraram um passo adiante. Se a comida deve ser autoral, então a apresentação também precisa ser. E se a apresentação é autoral, ela não pode ser delegada à sala. Tem de ficar na cozinha.

Quando Fernand Point morreu em 1955, deixou uma geração órfã de mestre e prenhe de método. Doze anos depois, essa geração começaria a transformar a alta cozinha francesa por dentro.

A travessia do Atlântico

Em algum momento dos primeiros meses de 1979, Gaston Lenôtre — pâtissier célebre, dono de uma rede de boutiques de doces que tinha virado padrão internacional do refinamento francês — entrou na cozinha dos Troisgros em Roanne com uma proposta concreta. O hotel Rio Palace, que estava prestes a abrir em Copacabana, queria inaugurar seu restaurante de alta gastronomia, o Le Pré Catelan. Precisava de um chef francês para a cozinha. Procurava entre as cozinhas que confiava. Lenôtre perguntou, na cozinha do Pierre, quem queria ir ao Brasil.

Levantou a mão Claude Troisgros, filho de Pierre e de Olympia — uma italiana cujo nome o restaurante carioca herdaria, dali a quatro anos, em homenagem. No primeiro de novembro de 1979, Claude desembarcou no Rio com 23 anos, um contrato curto e uma cozinha de hotel para montar.

O que encontrou era um vazio. Em entrevista quase meio século depois, Claude resume:

Quando cheguei ao Rio, o restaurante francês basicamente não existia.

Era literal. A alta cozinha francesa no Brasil dos anos 70 cabia em duas ou três casas tradicionais que reproduziam, com competência variável, o cardápio do Guide Culinaire — molho béarnaise, sole meunière, coq au vin. Nada da Nouvelle Cuisine. Nada do empratamento autoral. Nada da leveza, da brevidade, do produto soberano que Pierre, Jean, Bocuse e Guérard tinham passado os anos 60 e o começo dos 70 codificando. O Brasil, para a gastronomia que se fazia em Roanne, era um continente de quem ainda não tinha ouvido a notícia.

A travessia, no entanto, não foi obra de um só. Em 1980, Laurent Suaudeau chegava ao mesmo Rio, com 23 anos, contratado por Paul Bocuse para comandar o Le Saint-Honoré do Hotel Méridien. Os dois iam se conhecer, segundo Suaudeau, “na boemia” — viraram a primeira dupla francesa de uma geração que dispensaria intérpretes. Roland Villard sucederia Claude no Le Pré Catelan poucos anos depois, onde permanece até hoje. Erick Jacquin chegaria muito mais tarde, em fevereiro de 1995, para o Le Coq Hardy em São Paulo — já outra geração, outra cidade, outro momento da economia brasileira.

Mas a geração dos anos 70 e 80 — Claude e Laurent — foi a que cumpriu o trabalho fundador. Trouxeram, junto com a técnica francesa, um modo de pensar a cozinha que aqui ainda não existia institucionalmente. O chef como autor. O prato como composição. O produto local lido com olhos europeus e devolvido transformado. Foi isso que atravessou o Atlântico em 1979. Não foi apenas a comida francesa — foi a Nouvelle Cuisine inteira, com sua filosofia, seu vocabulário visual e sua exigência. Vinte anos depois da cozinha de Vienne, sete anos depois dos Dez Mandamentos do Gault & Millau, a revolução silenciosa de Roanne chegava ao Rio de Janeiro pela porta de serviço de um hotel cinco estrelas em Copacabana.

E ali, naquele Le Pré Catelan que abriria as portas em 1979 com um chef de 23 anos na cozinha, começava o que seria a história de quase meio século da família Troisgros no Brasil.

O Roanne e o Olympe — a tropicalização da técnica

O Le Pré Catelan durou pouco para Claude. Saiu meses depois de assumir, foi para Búzios, abriu um restaurante minúsculo chamado Le Petit Truc, perambulou um pouco — até que, em algum momento entre 1981 e 1982, decidiu que era hora de tentar o próprio negócio no Rio. Encontrou um espaço de trinta metros quadrados numa rua quieta do Leblon chamada Conde de Bernardote. Cabia uma cozinha de fundo e dezoito lugares. Batizou o restaurante com o nome da cidade da família: Roanne.

Não tinha dinheiro, não tinha clientela, não tinha o aval de nenhum padrinho local. Tinha um sobrenome francês de peso e a técnica que tinha aprendido em Roanne. Os primeiros meses foram de pouca gente na sala. Até o dia em que um cliente curioso entrou:

Um belo dia o Boni entrou para provar a comida atraído pelo sobrenome de meu pai.

José Bonifácio de Oliveira — o Boni, o todo-poderoso da Rede Globo nos anos 80 — almoçou, gostou, voltou. Levou junto o jornalista Armando Nogueira. Os dois apadrinharam o lugar. “No dia seguinte”, segundo a versão que Claude conta hoje, “fila na porta.” O Roanne, restaurante de trinta metros quadrados num quarteirão sem trânsito do Leblon, virou ponto de almoço dos diretores da Globo. A reputação se construiu em meses.

Em 1983, com a casa pequena demais para a demanda que ela mesma tinha gerado, Claude saltou para o Jardim Botânico. Pegou um sobrado mais espaçoso na Rua Custódio Serrão, 62, e batizou-o de Olympe — versão francesa de Olympia, o nome da mãe, italiana, esposa de Pierre. O sobrenome materno passava a marcar uma casa de alta gastronomia carioca. Por trinta e seis anos, esse nome seguraria a placa.

O que o Olympe fazia, na cozinha, era exatamente o que a Nouvelle Cuisine de Roanne tinha consolidado uma década antes — só que num alfabeto diferente. O empratamento autoral, o vocabulário visual, a recusa do excesso, o produto soberano — tudo isso estava lá. Mas o produto soberano não era mais o salmão do Loire ou o aspargo branco. Era a mandioca, era o palmito, era o peixe da costa, era o cupuaçu, era a rapadura. Claude leu ingredientes brasileiros com olhos europeus e os devolveu transformados — não como fusion exótica, não como concessão ao turismo, e sim como matéria-prima legítima da alta cozinha. Era a Nouvelle Cuisine sendo praticada com outro vocabulário botânico. O método era francês. A despensa, brasileira.

A consagração veio em camadas. Em 2015, quando o Guia Michelin publicou sua primeira edição brasileira, o Olympe recebeu uma estrela — entre as primeiras concedidas no país. Manteve a estrela em 2016, 2017 e 2018. Em 2016, figurou em 17º lugar no Latin America’s 50 Best Restaurants. Em 2017, em 23º. Era reconhecimento internacional para uma cozinha que tinha começado num quarteirão silencioso do Leblon três décadas e meia antes.

Em paralelo, Claude virou figura pública. Estreou na televisão em 2004, no GNT, e em 2010 já comandava Que Marravilha!, programa que rodaria por vinte e duas temporadas. Em 2019, estreou o Mestre do Sabor na Globo aberta. O sobrenome Troisgros, que tinha chegado ao Brasil em silêncio em 1979, era agora reconhecido em sala de espera de aeroporto. O Olympe — que tinha começado como aposta de um chef de 27 anos numa esquina do Jardim Botânico — virou a expressão máxima dessa trajetória.

Quando o Guia Michelin fez sua quarta edição brasileira em 2018, o Olympe ainda estava lá, com sua estrela. Ninguém poderia imaginar que, em poucos meses, ele deixaria de existir.

A pandemia, o hiato e o retorno

O fechamento do Olympe veio em 2019, antes de qualquer um suspeitar de pandemia. Não houve manifesto, não houve nota oficial de despedida pomposa. O Grupo Troisgros registraria, anos depois, num post em rede social, a moldura seca da despedida: Olympe foi uma referência gastronômica no Rio de Janeiro durante muitos anos (1983 a 2019). Trinta e seis anos cabiam naquele parêntese.

Para o público, a impressão que se cristalizou foi diferente. Em parte porque a pandemia chegou logo em seguida — e devastou o setor de alta gastronomia em todo o mundo, levando consigo casas históricas e nomes consagrados. Em parte porque Claude, em entrevistas posteriores, integrou o fechamento no quadro maior do colapso pandêmico, dizendo simplesmente que “fechou suas portas durante a pandemia”. As duas versões coexistem nas fontes: o registro oficial datado em 2019; a narrativa pessoal que estica o evento até 2020 e 2021, quando o setor inteiro estava em colapso. Provavelmente as duas são verdadeiras. O Olympe começou a fechar em 2019 e terminou de fechar sob a sombra da catástrofe sanitária. O nome materno saiu da placa do Jardim Botânico para não voltar — pelo menos não no mesmo endereço.

Em qualquer interpretação, o que se seguiu foi um hiato. Por cinco anos e meio, a partir do encerramento do Olympe, Claude esteve fora da alta gastronomia. Não estava parado — pelo contrário, multiplicou-se. Em 2017, ainda com o Olympe aberto, tinha inaugurado o Chez Claude, no Leblon, numa loja da Conde de Bernardote. Em 2023, transformou o Bar do Claude na Cantina do Claude, no mesmo endereço. Abriu o Chez Claude SP no Itaim Bibi. Assumiu um restaurante em Salvador (Pala7 Rooftop). Outro em Goiânia (Cucina Mia). Outro em São Paulo, Bistrot du Quartier. O sobrenome Troisgros pulverizou-se em sete ou oito endereços de cinco cidades. A alta gastronomia, no entanto — aquela que tinha sido a vocação central da casa de Roanne, e que tinha sido o que ele veio fazer ao Brasil em 1979 — ficou em pausa.

Em paralelo, Thomas Troisgros seguia uma trajetória própria. Filho do Claude e da Marlene, tinha começado a cozinhar ao lado do pai na cozinha do Olympe. Em 2013, ainda muito jovem, abriu sua própria casa de hambúrgueres, a TT Burger, no Arpoador. Pareceu, na época, decisão menor — mas a rede cresceu, abriu unidade após unidade, hoje passa de dezessete endereços em dez cidades brasileiras. Em 2020, durante a pandemia, criou a Três Gordos, marca de smash burger de delivery. Em 2023, inaugurou o Toto, restaurante de cozinha mediterrânea em Ipanema. Em 2024, no andar de cima do mesmo edifício, abriu o Oseille — casa de alta gastronomia francesa, menu degustação, sob seu próprio comando. Em 2025, o Oseille recebeu uma estrela no Guia Michelin. A 4ª geração da família tinha a sua primeira estrela.

A continuidade familiar que se imaginaria — Thomas assumindo o Olympe e dando continuidade ao nome do avô paterno — não aconteceu. Ela tomou outro caminho. Thomas construiu reputação independente em Ipanema, do hambúrguer ao menu degustação. Claude, do lado dele, multiplicou-se em casuais. Os caminhos se separaram. Os endereços, também: enquanto o filho consolidava o nome no eixo Ipanema-Arpoador, o pai foi recolhendo-se, aos poucos, à Conde de Bernardote do Leblon — a mesma rua de quatro décadas antes.

Em janeiro de 2026, o pai começou a sair dos projetos fora do Rio. Chez Claude SP fechou. Pala7 e Cucina Mia foram entregues. Em fevereiro, saiu também do Bistrot du Quartier paulistano. O sobrenome Troisgros, que tinha se espalhado por meia dezena de cidades durante a década, encolheu de volta para o Leblon — para três endereços contíguos na mesma quadra da Conde de Bernardote: o Chez Claude, a Cantina do Claude, e uma terceira casa que ainda estava em silêncio. Casa que ninguém sabia que vinha.

O retorno em 44 anos — o legado invisível

Em algum momento entre o fim de julho e o começo de agosto de 2025, Claude Troisgros — então com 69 anos, ainda na barba grisalha e nos olhos atentos de sempre — abriu uma porta na Rua Conde de Bernardote, número 26, Leblon. Atrás da porta, segundo a repórter da Veja Rio que cobriu a cena, havia uma diminuta cozinha que serviu ao Roanne, seu primeiro restaurante carioca. Era a cozinha onde tinha começado, em 1981. Estava de volta para reabrir nela.

No dia 8 de agosto de 2025, depois de pré-estreias para amigos e clientes íntimos, o Madame Olympe serviu seu primeiro jantar público. Dezoito lugares. Menu degustação de oito etapas, com versão reduzida de quatro. Cozinha franco-brasileira ao lado da chef-executiva Jéssica Trindade — carioca, na casa dos trinta e tantos, que tinha entrado no grupo Troisgros aos dezenove para um estágio no Bistrô 66 e nunca tinha saído. Sob a porta, na placa, o nome materno voltava — agora com a cortesia francesa do Madame. Olympia Troisgros, mãe italiana de Claude, ganhava o tratamento de senhora numa casa que reabria como homenagem tardia.

Oito meses depois, em 13 de abril de 2026, na cerimônia do Guia Michelin Rio e São Paulo realizada no Copacabana Palace, o Madame Olympe recebeu uma estrela. Era a primeira do restaurante, na primeira edição do guia em que apareceu. Claude subiu ao palco com Jéssica ao lado. Jéssica recebeu, naquela noite, o reconhecimento que a tornou a primeira mulher carioca a entrar para o seleto grupo de chefs estrelados no Brasil — e a segunda mulher brasileira em qualquer cidade. Quase meio século depois de ter desembarcado no Rio sem conhecer ninguém, Claude voltava à categoria mais alta da gastronomia brasileira ao lado de uma chef que ele tinha formado em casa por duas décadas.

A continuidade que se imaginaria — o nome do Olympe passando de Claude para Thomas — não veio. Thomas tinha construído outro caminho, em Ipanema, com sua própria estrela no Oseille desde 2025. A sucessão familiar tomou rota oblíqua. A continuidade da casa, no Leblon, veio em outra figura: Jéssica, que tinha entrado pela porta de serviço aos dezenove anos, fez temporadas com Pierre Troisgros em Roanne em 2011 e com Michel em 2025, passou pelo Mirazur de Mauro Colagreco em Menton, e voltou para o Rio para receber, ao lado de Claude, a estrela que a casa esperava. Não era sucessão de sangue. Era sucessão de escola.

E aqui é onde o gesto inicial reaparece com toda a sua força. Em algum momento da segunda metade dos anos 1960, dois irmãos em Roanne tiraram o prato das mãos do garçom e devolveram à cozinha. Aquela decisão pequena — tão pequena que nem livro tem — gerou tudo o que se chama hoje, no mundo inteiro, de alta gastronomia contemporânea. O empratamento individual, o chef como autor visual, a composição autoral, o vazio calculado no prato, a porção exata, o produto soberano — tudo isso é hoje tão evidente que parece natural. Nenhum restaurante sério no Brasil de 2026 serve diferente. Nenhum cliente de menu degustação espera outra coisa. Nenhum crítico precisa explicar por que o prato chega fechado da cozinha. Virou invisível porque virou universal.

Esse é o destino das revoluções silenciosas: quando vencem, somem na paisagem. Os Troisgros venceram tão completamente que ninguém mais lembra que houve uma luta. O gesto de 1965 está em cada prato individual servido hoje em Roanne, em Vienne, em Tóquio, em Lima, em Copacabana, em Ipanema, em Leblon. Atravessou o Atlântico em 1979 no contrato de um chef de 23 anos. Foi praticado por 36 anos no Jardim Botânico. Encerrou em 2019. Esperou cinco anos em silêncio. Voltou em agosto de 2025, no mesmo trecho da Conde de Bernardote onde tinha começado em 1981, agora ao lado de uma sucessora que não compartilha o sobrenome mas carrega a escola inteira.

O gesto foi pequeno. O mundo virou.

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