Cultura

Quem decide o que o Brasil come

Subsídios, lobby agroindustrial, publicidade para crianças e a destruição sistemática da alimentação escolar: o mapa do poder que está no seu prato.

Por gastronomizaê 14 de abril de 2026 ⏱ 22 min
Quem decide o que o Brasil come

Quando você escolhe o que comer, você está exercendo poder. Mas antes que essa escolha exista, um conjunto de decisões políticas, econômicas e culturais já decidiu o que vai estar disponível para você escolher, a que preço, com qual facilidade de acesso, e cercado de qual tipo de comunicação. A ilusão de que comer é uma escolha puramente individual começa a se desfazer quando você acompanha o caminho do dinheiro.

O Brasil é o quarto maior produtor de alimentos do mundo. Também tem 33 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave. Essas duas realidades coexistem não apesar uma da outra, mas em parte por causa uma da outra — porque o sistema que produz tanto alimento é o mesmo que concentra terra, subsidia commodities e desinveste na agricultura familiar que poderia alimentar o país com mais diversidade e menos transporte.

O subsídio invisível

O Plano Safra brasileiro destina anualmente entre R$ 300 e R$ 500 bilhões para o agronegócio, com taxas de juros subsidiadas muito abaixo do mercado. O Pronaf — Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar — opera com um orçamento entre 30 e 50 vezes menor.

Isso não é apenas uma diferença de escala: é uma diferença de modelo. O agronegócio subsidiado produz soja, milho, cana e carne bovina para exportação. A agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos internamente — o feijão, a mandioca, o leite, as verduras, as frutas que chegam na sua mesa via CEASA. Um apoia o que sai do Brasil; o outro apoia o que alimenta o Brasil. Os recursos refletem essa hierarquia de prioridades.

A publicidade que ninguém discute

Em 2010, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou uma resolução que restringia a publicidade de alimentos ultraprocessados direcionada ao público infantil. A resolução nunca entrou em vigor. Foi suspensa por liminar judicial após ação da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) e nunca foi regulamentada.

As crianças brasileiras continuam sendo expostas, em média, a mais de 12 peças publicitárias de alimentos por hora de TV. A proporção de alimentos ultraprocessados nessa publicidade é maior do que 90%. O que as crianças aprendem a querer comer é, portanto, determinado em larga medida pelo orçamento de marketing das empresas alimentícias — não pelas famílias, não pelas escolas, não pelo estado.

Outros países regulamentaram isso. O Reino Unido proibiu publicidade de alimentos não saudáveis durante horário infantil. O Chile obrigou rotulagem frontal com selos pretos de advertência. O Brasil debateu, cedeu ao lobby, e a publicidade segue.

O cardápio escolar como campo de batalha

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) é um dos maiores programas de alimentação pública do mundo — serve refeições a mais de 40 milhões de estudantes por dia. Por lei, 30% do orçamento do programa deve ser gasto com produtos da agricultura familiar.

Na prática, esse percentual raramente é alcançado. Gestores municipais enfrentam dificuldade de logística com pequenos produtores, que não têm capacidade de entrega padronizada em grande escala. As empresas terceirizadas que fornecem alimentos para escolas em regime de licitação tendem a ser grandes e a ter catálogos pouco diversificados. O resultado é que a alimentação escolar no Brasil muitas vezes reproduz os mesmos padrões ultraprocessados que a criança encontraria em casa — e às vezes piores.

O cardápio escolar não é detalhe técnico de nutricionista. É a decisão mais concreta que um município pode tomar sobre quem prospera no campo e o que seus filhos aprendem a comer.

O MAPA e a agenda

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento tem histórico de pautar a legislação sanitária e de inspeção de acordo com o interesse das grandes indústrias alimentícias. A facilitação do uso de pesticidas banidos em outros países, a flexibilização dos critérios de inspeção de frigoríficos, e a resistência à regulamentação de queijos artesanais são exemplos de como a agenda regulatória afeta diretamente o que está disponível para comer — e em que condições foi produzido.

Não é acidente que o Brasil tenha o maior número de agrotóxicos permitidos no mundo. É o resultado de um processo político em que os interesses da indústria química e do agronegócio exportador pesam mais do que as evidências epidemiológicas sobre os efeitos desses compostos sobre trabalhadores rurais e consumidores urbanos.

O que a gastronomia tem a ver com isso

A resposta fácil é: nada. A gastronomia é sobre sabor, técnica, prazer. Política é outra conversa.

A resposta honesta é: tudo. Cada vez que um chef decide de qual produtor vai comprar seus ingredientes, está votando num modelo de cadeia alimentar. Cada vez que um consumidor paga mais por um queijo artesanal de procedência, está subsidiando uma prática agrícola que o estado não subsidia. Cada vez que uma publicação gastronômica escreve sobre terroir, sobre produtor-para-mesa, sobre ingredientes nativos, está construindo demanda por um modelo alimentar diferente do que a indústria preferiria.

Gastronomia não resolve o problema estrutural. Mas normalizar a pergunta “de onde veio isso e quem decidiu que seria assim” é o começo de uma conversa que, até hoje, o setor gastronômico brasileiro tem evitado.

O que fica no prato

Na próxima vez que você sentar para comer, o preço que está no menu reflete uma série de decisões políticas que não foram tomadas por você: os subsídios que o produtor recebeu ou não recebeu, a regulamentação que permitiu ou proibiu determinado ingrediente, a logística que chegou ou não chegou no interior. O prato que chegou à mesa já passou por uma eleição que aconteceu sem você.

O mínimo que podemos fazer — como consumidores, como cozinheiros, como críticos gastronômicos — é parar de fingir que a política do prato é separada da política do país.

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