A maioria das cápsulas de café vendidas no Brasil leva nome de intensidade, número ou blend genérico. No catálogo do Coffee Lab, a casa paulistana de Isabela Raposeiras, o critério é outro: cada cápsula leva o nome de uma pessoa. Hoje estão à venda, entre outras, as cápsulas Raimunda, Tomio Fukuda, Manassés Dias, Edevaldo Costalonga e José Carlos Velten — vendidas avulsas, entre R$ 39 e R$ 52, ou em kit.
Um produtor de peso e uma homenagem de casa
Nem todo nome do catálogo é um produtor rural. Raimunda foi, por mais de uma década, funcionária da limpeza do Coffee Lab, e sua mistura de grãos, preparada em casa e levada para o trabalho, virou tema de curiosidade entre a equipe muito antes de virar produto. A receita muda de composição a cada lote — Raimunda ajusta a mistura no dia a dia —, o que torna cada tiragem tecnicamente distinta da anterior. Virou item de catálogo, com direito a fãs declarados até no Japão, segundo relatos publicados sobre a casa.
Já Tomio Fukuda é nome conhecido de quem acompanha café especial fora do Brasil. Produtor de origem japonesa à frente da Fazenda Baú, em Patos de Minas, no Cerrado Mineiro, ele cultiva a mais de 1.100 metros de altitude e exporta para torrefadores de referência em mercados como Estados Unidos e Japão. Uma cápsula com esse nome não é enfeite de rótulo: é rastreabilidade de fato, até a fazenda e o produtor específicos.
Por que isso é raro em cápsula
O modelo dominante de cápsula — o das grandes marcas multinacionais — trabalha com blend e número de intensidade justamente para manter uniformidade de safra a safra: o consumidor sabe o que vai encontrar, mas não sabe de onde veio o grão nem quem o produziu. O caminho do Coffee Lab inverte essa lógica: a cápsula assina o nome de quem está por trás do café, o que implica aceitar variação de safra para safra — exatamente o tipo de transparência que a cena de café especial cobra de torrefadores, mas que raramente aparece no formato cápsula.
Isabela Raposeiras abriu o Coffee Lab em 2004, depois de vencer o primeiro Campeonato Brasileiro de Barista, em 2002, e é hoje uma das referências mais citadas da cena de café especial no país — o tipo de currículo que explica por que a casa consegue negociar lotes específicos com produtores do calibre de Tomio Fukuda em vez de comprar café por classificação genérica de qualidade.
Nota apurada a partir de informações públicas do site e da loja online do Coffee Lab, de reportagens sobre a Fazenda Baú (Cerrado Mineiro) e de relato publicado sobre a origem do Café da Raimunda. O gastronomizaê não visitou a casa nem testou as cápsulas para esta matéria, e não tem relação comercial com o Coffee Lab.