Cultura Alimentar

164 Itens, 4 Cartas e um Tema de Friends: Até Onde Vai o Cardápio de Café?

Fui ao Café Bonjour, em BH, e contei item por item: 164 opções em quatro cartas, do pão de queijo ao vinho importado, passando por uma carta de café especial com grão certificado SCA. O cardápio tem tema de Friends, coquetel com álcool e uma carta de vinhos de cinco países. Fica a dúvida: alguém consegue executar tudo isso bem?

Por Luiz Lessa 10 de setembro de 2026 ⏱ 6 min de leitura
164 Itens, 4 Cartas e um Tema de Friends: Até Onde Vai o Cardápio de Café?

Sentei no Café Bonjour, na Rua Curitiba, no Lourdes, e pedi o cardápio. Vieram quatro cartas plastificadas: o cardápio principal (duas páginas, letra miúda, três colunas), uma carta de vinhos e uma carta de cafés especiais. Contei item por item, sem contar adicionais como “leite sem lactose” ou “acrescente whey”: 164 itens distintos.

Para efeito de comparação, um cardápio de restaurante já é considerado grande a partir de 30 a 40 itens — número que a literatura de gestão de food service costuma citar como limite antes de a cozinha começar a perder consistência. O Bonjour está a mais de quatro vezes disso, e ainda por cima é, nominalmente, uma cafeteria.

O que cabe dentro de “café da manhã”

O cardápio principal cobre pão de queijo (sete variações, incluindo trufado e “doce meu”), croissants salgados e doces, omeletes, tapiocas, oito sanduíches na categoria “Entre Pães e Fogo”, oito toasts artesanais e treze itens de doceria — entre pancake, brownie e bolo do dia. Isso já são 52 itens antes de qualquer líquido chegar à mesa.

A segunda página do cardápio principal é onde a casa decide que também é uma cafeteria de especialidade, uma sorveteria e um bar. São dez preparos na categoria básica de café, treze cappuccinos, cinco “cafés moche”, seis frappês gelados, sete chocolates quentes, dez cafés gelados e dezesseis bebidas na “Estação do Frescor” — de matcha lavanda a limonada suíça. E, no meio disso tudo, uma seção chamada “Para Brindar”: Bellini, Mimosa, Amalfitano Spritz, Saint Tropez Spritz, Aperol Spritz, Limoncello Spritz e três caipirinhas, uma delas de vinho tinto. Isso soma 137 itens no cardápio principal, sozinho.

Depois vem a carta de vinhos — e a coisa fica séria

Se “Para Brindar” já era coquetel numa cafeteria, a carta de vinhos separada é outro nível: 13 rótulos, em parceria com a importadora Casa Rio Verde, cobrindo cinco países. Dois espumantes espanhóis, três brancos (Argentina, Chile, Itália), um rosé chileno, cinco tintos (Chile, Itália, Portugal) e duas taças da casa. Os preços vão de R$ 110 a R$ 160 a garrafa — faixa de vinho de restaurante, não de cafeteria de bairro.

E uma carta de café especial que, essa sim, parece feita a sério

A quarta carta é a que menos combina com “exagero por exagero”: uma seleção de café especial com grãos certificados SCA da safra 2025/2026, com produtor nomeado em cada lote — São Gotardo (Agropecuário São Gotardo, Serrado Mineiro), Joelma (Joelma Oliveira, Patrocínio-MG), Elmiro (Elmiro Nascimento, Olegário-MG), Arara e Chocolate (ambos de Luiz Fernando, Matas de Minas) e uma opção descafeinada. Preço único: R$ 22 a xícara de 180 ml.

O detalhe que realmente eleva a régua: o cliente escolhe também o método de extração, entre oito opções — AeroPress, Prensa Francesa, Koar, Chemex, Kalita, Pressca, Clever e Hario V60, cada um com uma linha explicando o perfil de xícara que produz. Seis grãos vezes oito métodos são 48 combinações possíveis só nessa carta, sem contar o cardápio principal.

Isso não é frescura de cardápio. Rastreabilidade até o nome do produtor, certificação SCA e opção de método de extração são o vocabulário de uma cafeteria de especialidade séria — o tipo de carta que normalmente vem sozinha, numa casa que só faz isso.

O tema é Friends, e isso explica (só um pouco)

Há uma lógica por trás de parte do exagero no cardápio principal: o Bonjour tem tema declarado da série Friends. Os oito toasts levam nome de personagem — Joey, Mônica, Ross, Chandler, Janice, Gunther (o barista do Central Perk, escolha precisa para um cardápio de café) — e a seção “Especiais Bonjour” cita falas icônicas da série como nome de bebida: “How You Doin’”, “Oh My God”, “Pivot Pivot”, “My Eyes My Eyes”.

É um detalhe de identidade bem-executado, e explica por que a casa tem oito toasts em vez de três ou quatro — o tema pede o elenco completo. Mas não explica por que também existem treze cappuccinos, dezesseis bebidas geladas, uma carta de vinho de cinco países e uma carta de café com 48 combinações. O tema justifica a curadoria de nomes. Não justifica o volume.

O problema não é a criatividade. É a execução

Cardápio grande não é pecado por si só — existem casas que operam centenas de itens com consistência, geralmente com cozinha industrial, escala e um sistema de produção pensado para isso. A pergunta que cabe aqui é outra: uma cafeteria de bairro, com cozinha de porte comum, consegue manter treze cappuccinos igualmente bem-feitos, estocar insumo fresco para dezesseis bebidas de fruta, decantar um vinho de R$ 160 corretamente, e dominar oito métodos de extração de café especial — tudo ao mesmo tempo, com a mesma equipe?

Cada item a mais no cardápio é estoque a mais, treinamento a mais, ponto de falha a mais. A sabedoria básica de menu engineering — a disciplina que estuda como cardápios afetam operação e lucro — costuma recomendar o oposto do que o Bonjour faz: menos itens, mais bem executados, com insumos compartilhados entre pratos para reduzir desperdício e complexidade. Um cardápio de 164 itens espalhados em quatro cartas é a aposta inversa: ou a casa tem uma retaguarda capaz de sustentar isso — cozinha, adega e barista treinado em oito métodos —, ou parte dessas 164 opções está ali para impressionar no papel, não para ser pedida com frequência.

Não provei os pratos, nem o vinho, nem testei os oito métodos de extração nesta visita — este texto é sobre o cardápio como objeto, não uma avaliação da comida ou da bebida. Mas o conjunto das quatro cartas, sozinho, já conta uma história: a de uma casa que parece ter medo de dizer não a qualquer ideia que surgiu numa reunião de cardápio — seja ela um toast temático, um espumante espanhol ou uma carta de extração digna de torrefador third-wave. Web summit ou Central Perk, o problema de tentar ser tudo para todo mundo é sempre o mesmo.


Nota de observação. Contagem de itens feita manualmente a partir de fotos das quatro cartas físicas, tiradas pelo gastronomizaê durante visita ao Café Bonjour em setembro de 2026. Este texto não avalia sabor, qualidade ou execução dos pratos, vinhos ou cafés — não houve pedido nesta visita — e trata exclusivamente da estrutura do cardápio como documento. A imagem de capa é ilustração gerada por inteligência artificial, de caráter simbólico — não retrata o cardápio real nem o interior da casa. O gastronomizaê não tem relação comercial com o Café Bonjour nem com a Casa Rio Verde.

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