Na semana de moda de Nova York, o designer Adam Lippes recebeu convidados para um “café da manhã” com favos de mel, figos, melão, mini quiches, pain au chocolat e torradinhas de ovo mexido com caviar — tudo organizado com a precisão de uma natureza-morta holandesa. Segundo a reportagem do Washington Post, quase ninguém tocou no prato. Medo de estragar o batom, vestido apertado demais para sentar, o uso disseminado de GLP-1, ou simplesmente o pavor de ser flagrada mastigando: existe comida na NYFW, e ela existe principalmente para ser fotografada, não comida.
Em alguns desfiles, a comida nem finge ser comestível. Na apresentação da Alice + Olivia, de tema “fairytale”, modelos posavam ao lado de uma casquinha de sorvete esculpida do tamanho de uma pessoa e framboesas do tamanho de bolas de futebol — pura cenografia. Já no desfile da estilista Shao, dentro do restaurante Chinese Tuxedo, o cardápio (pepino picante, cogumelo-orelha marinado, dumplings de porco) não estava ali para alimentar ninguém: “adiciona à narrativa” da coleção, inspirada em filmes de tríade de Hong Kong dos anos 1990, segundo a designer. A comida virou puramente linguagem visual — o prato como adereço de storytelling, desligado de qualquer função nutritiva.
Isso não significa que a comida seja descartável enquanto objeto — pelo contrário, ela é levada a sério como peça de design. A food designer Alice Malaret, que já assinou criações para Louis Vuitton, Bottega Veneta, Miu Miu e Mugler, fez para a apresentação da Rachel Comey uma mesa de doces em azul, verde e roxo tão bonita que os convidados tentavam levar embora até os espelhos usados como bandeja. “Nos importamos tanto com o sabor e a qualidade da nossa comida quanto com a estética”, garantiu a assessoria do bufê Chichi Eats ao jornal — uma afirmação que soa quase desesperada num contexto em que o próprio prato foi desenhado para ser admirado, não devorado.
O desperdício que sobra desse teatro é o ponto que a reportagem cutuca sem resolver: como pode haver tanta comida ignorada num evento, enquanto tanta gente no mundo passa fome? Há sinais pequenos de que a indústria percebeu o problema — a estilista Talia Abbe, que no ano passado precisou doar boa parte dos 200 sanduíches de chá que sobraram do seu desfile, neste ano trocou a bandeja farta por batata frita trufada feita na hora, item por item, sem excedente. É uma correção mínima, movida mais por logística do que por consciência — mas é a única, entre todos os casos relatados, que trata comida como algo que se janta, não como algo que se posta.
O que os bastidores da NYFW revelam, no fim, não é hipocrisia gastronômica — é a mesma tensão que já vimos aqui na cobertura dos jantares GLP-1 da indústria farmacêutica: uma cultura que quer o significado social da comida (fartura, sofisticação, generosidade) sem querer as calorias que vêm junto. A mesa mais bonita do mundo não alimenta ninguém se o medo de comer for maior do que a fome.
Nota editorial. Ensaio com base na reportagem “The foods at New York Fashion Week shows: I’ll have what she’s not having”, de Maura Judkis e Shane O’Neill, publicada pelo The Washington Post em 17 de setembro de 2026 (texto integral fornecido por leitor ao gastronomizaê, já que o site é pago e bloqueia scraping). O gastronomizaê não apurou informações adicionais junto às marcas, designers ou bufês citados, e não tem relação comercial com nenhuma das partes.