O Dia da Banana, 22 de setembro, tem origem menos documentada do que as datas oficiais deste mês. A referência mais consistente liga a data a Registro, no Vale do Ribeira, em São Paulo, uma das principais regiões produtoras do país. Não localizei lei ou decreto instituindo a data em âmbito nacional, e registro isso em vez de atribuir a ela uma origem que não confirmei.
A fruta, essa, dispensa apresentação e é justamente por isso que quase nunca é olhada com atenção.
A banana é onipresente na casa brasileira e tem uma característica que a torna um caso singular: ela é comprada em cacho e consumida uma a uma. Isso cria um descompasso previsível entre o ritmo de compra e o ritmo de amadurecimento. O cacho amadurece junto, a família come em ritmo individual, e a diferença entre as duas curvas é o desperdício.
Ela é também das frutas que mais aparecem nos levantamentos de descarte doméstico no Brasil, e por um motivo que tem menos a ver com a fruta do que com a nossa leitura dela. A banana com pinta preta na casca é lida como estragada. Não está. Ela está no ponto de maior concentração de açúcar, que é exatamente o ponto em que ela serve melhor a bolo, panqueca, vitamina, doce de banana e caramelização em frigideira. O que ocorre é que a casca comunica um estágio de deterioração que a polpa ainda não atingiu, e a decisão de descarte é tomada olhando a embalagem, não o conteúdo.
Isso vale para além da casa. Em serviço de alimentação, a fruta que passou do ponto estético é sistematicamente retirada de circulação porque não pode ir para o bufê nem para a fruteira de balcão. Uma cozinha que planeja tem destino para ela. Uma cozinha que não planeja transforma em lixo aquilo que era matéria-prima de sobremesa.
Vale corrigir de passagem duas coisas que circulam sobre a fruta.
A banana não é uma fonte notável de potássio quando comparada a outros alimentos comuns. Ela tem potássio, e tem uma quantidade decente, mas feijão, batata e abacate entregam mais por porção. A associação entre banana e potássio é um caso de marketing eficiente virando fato presumido.
E a banana não é excepcionalmente calórica nem particularmente “engorda”, como se ouve. Uma unidade média fica na faixa de uma fruta comum. O que costuma acompanhar a banana nos preparos, leite condensado, açúcar, massa de bolo, é o que muda a conta.
Sobre o Brasil, um dado que é preciso tratar com cuidado: o país está entre os maiores produtores mundiais, mas exporta pouco em relação ao que produz, porque o consumo interno absorve quase tudo. Isso é frequentemente narrado como fracasso comercial. É mais interessante lido de outro jeito: temos uma fruta de alta densidade nutricional, produzida em larga escala, distribuída em todo o território e barata o suficiente para estar em qualquer feira do país. É pouca coisa no Brasil que se pode dizer isso.
Daqui a uma semana, no dia 29, se comemora o Dia Internacional de Conscientização sobre Perda e Desperdício de Alimentos. As duas datas conversam mais do que parece, e a banana é provavelmente o melhor exemplo doméstico do que a segunda quer discutir: não jogamos fora comida estragada, jogamos fora comida que decidimos que estava estragada.