Bebidas

Minas Vende Cachaça como Patrimônio e Não Consegue Medir a Própria Cadeia

Cerca de 87% da cachaça de alambique produzida em Minas é irregular. O estado fechou 2025 com 564 produtores registrados e uma estimativa de 5.535 alambiques em operação. A diferença entre esses dois números é a matéria.

Por Luiz Lessa 13 de setembro de 2026 ⏱ 6 min de leitura

O Dia Nacional da Cachaça foi criado em 2009 pelo Instituto Brasileiro da Cachaça, e um projeto de lei do deputado Valdir Colatto chegou a ser aprovado em outubro de 2010 na Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Aprovação em comissão não é lei sancionada, e por isso o correto é dizer que a data foi instituída pelo setor, não pelo Estado. A escolha do 13 de setembro remete a 1661, quando a rainha Luísa de Gusmão liberou a produção e o comércio da bebida no Brasil, revertendo a proibição imposta pela Coroa, episódio que ficou conhecido como Revolta da Cachaça.

Feita a checagem, vamos ao número que importa.

Cerca de 87% da cachaça de alambique produzida em Minas Gerais é irregular. Não informal no sentido vago do termo: irregular, sem registro no órgão competente. Minas encerrou 2025 com 564 estabelecimentos produtores registrados, o equivalente a 36,7% de todas as indústrias e alambiques formalizados do país, mais que qualquer outro estado. A estimativa de alambiques em operação em Minas é de 5.535.

Os dois números convivem na mesma frase e é preciso encará-los juntos: o estado que lidera o registro nacional com folga é o mesmo em que a grande maioria da produção está fora do registro. Não é contradição. É a dimensão do problema. Minas lidera porque tem alambique demais, não porque regularizou.

Nacionalmente a estimativa de informalidade chega a 90%, e o IBRAC trabalha com número próximo, na casa dos 89%. Ou seja, o que se conhece formalmente sobre a cachaça brasileira é a fração menor dela.

As razões que o setor apresenta para a baixa regularização são consistentes e merecem ser registradas sem ironia: custo elevado de adaptação da estrutura às exigências sanitárias, ausência de linha de financiamento desenhada para a cadeia, e carga tributária alta sobre o produto. Um alambique familiar de baixo volume enfrenta um custo fixo de conformidade que não guarda proporção com o que ele fatura. Há ainda a discussão sobre o Imposto Seletivo, com projeção de que a informalidade aumente, não diminua, caso a carga suba.

Existe um efeito colateral desse quadro que raramente é mencionado e que é grave para quem cobre o assunto: não existe dado público confiável de volume de produção. Sem volume, não há política pública dimensionável, não há avaliação de impacto e não há sequer como saber se um programa de incentivo funcionou. O setor mais associado à identidade cultural do estado é, do ponto de vista estatístico, opaco.

Vale ser preciso sobre o que esses números dizem e o que não dizem. Irregularidade de registro não é, por si, atestado de bebida ruim ou perigosa. Há alambique tradicional de produção cuidadosa fora do registro, e há registro em dia com cachaça medíocre. O registro mede conformidade, não qualidade. Mas o registro é o que torna possível rastrear um problema quando ele aparece, e é o que separa uma cadeia auditável de uma cadeia sobre a qual só se pode ter opinião.

Vale ser preciso também sobre responsabilidade. O registro é do produtor. O bar que revende não é o elo regulado nesse ponto, e apontar o dedo para o boteco seria transferir para ele um ônus que não é dele. O que se pode legitimamente esperar de uma casa que se vende pela curadoria de destilado é outra coisa: que ela saiba dizer de onde vem cada rótulo da carta. É uma pergunta que qualquer cliente pode fazer, hoje, e a qualidade da resposta já diz bastante.

Antes de repetir os números acima, este veículo tentou verificá-los por conta própria, e vale contar o que deu.

O MAPA publica semanalmente, no Portal de Dados Abertos, a base de todos os estabelecimentos de bebidas registrados no país, com estado, município, situação e razão social. Baixamos essa base e a analisamos. Ela tem uma limitação decisiva: não informa o produto. Cachaça, refrigerante, suco e licor aparecem todos sob a mesma rubrica, “bebidas em geral”. Por isso o total de produtores de bebida ativos em Minas, que é de pouco menos de mil, não pode ser comparado com os 564 de cachaça. São recortes diferentes, e usar um para corrigir o outro seria o mesmo erro que este texto aponta em outro lugar.

O que a base permite é checar a proporção entre os estados, filtrando os produtores cuja razão social carrega os termos cachaça, alambique, aguardente, engenho ou destilaria. É um recorte que subestima o total, porque muita cachaçaria não leva o termo no nome, mas serve de aferição relativa. Por ele, Minas responde por 39,5% dos produtores do país, contra os 36,7% que circulam na imprensa. Os números conversam. E o município mineiro que aparece em primeiro lugar é Salinas, que é exatamente onde ele deveria aparecer: um método que não colocasse Salinas no topo estaria errado.

Ou seja: a ordem de grandeza se sustenta. O que continua faltando é o recorte por produto, que só o MAPA e o IMA podem fornecer, e a origem documental da estimativa de 5.535 alambiques, que circula sem fonte primária identificável. Os pedidos foram protocolados e o que vier entra aqui.

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