Cultura Alimentar

O Brasil na Garrafa: a Ocupação da Rua e a Descolonização do Copo no Dia da Cachaça

No Rio, o Dia Nacional da Cachaça juntou festa de rua na Lapa, feira de produtores no Cadeg e uma exposição na Casa Firjan que trata o destilado como documento histórico. Três frentes, uma disputa: tirar a cachaça do lugar de caipirinha genérica.

Por Luiz Lessa 10 de setembro de 2026 ⏱ 4 min de leitura
O Brasil na Garrafa: a Ocupação da Rua e a Descolonização do Copo no Dia da Cachaça

Pinga, aguardente, mé, caninha, marvada, branquinha, água que passarinho não bebe. A profusão de apelidos carinhosos e irônicos que acompanham o destilado de cana-de-açúcar espelha séculos de clandestinidade, resistência cultural e a longa disputa de um destilado nacional contra os preconceitos de classe da própria elite brasileira.

O Dia Nacional da Cachaça é celebrado em 13 de setembro — data que remonta a 1661, quando a rainha regente Luísa de Gusmão liberou a produção e a comercialização da bebida no Brasil, após a chamada Revolta da Cachaça. Na semana da data, o Rio de Janeiro reúne três frentes de celebração: a festa popular de rua, o comércio de pequenos produtores e a reflexão institucional.

A rua como vitrine

No coração boêmio da Lapa, a primeira edição da “Rua da Cachaça”, promovida pelo Jurema Bar na Rua Morais e Vale, reúne pequenos alambiques artesanais em degustações e rodas de samba na calçada. Na mesma semana, o Cadeg, em Benfica, recebe a feira “Cachaças do Rio — Histórias e Sabores”, com produtores fluminenses e workshops sobre fermentação e destilação em alambiques de cobre.

O destilado como documento

No polo institucional, a mostra “O Brasil na Garrafa”, na Casa Firjan, em Botafogo, com curadoria de Maria Isabel Oschery, gerente de Conteúdo e Inovação da instituição, trata a cachaça como documento historiográfico — sua presença na literatura modernista, nas letras de música popular e na evolução tecnológica dos engenhos.

Parte do que torna a cachaça brasileira singular é justamente a variedade de madeiras de envelhecimento disponíveis: enquanto uísque e conhaque orbitam quase exclusivamente em torno do carvalho americano e francês, o alambiqueiro brasileiro dispõe de amburana (baunilha e especiarias doces), bálsamo (adstringência herbácea) e jequitibá-rosa, ipê e ariribá, que preservam o frescor floral e mineral da cana.

A descolonização do gosto

Por décadas, o mercado de coquetelaria nacional relegou a cachaça à subserviência de uma caipirinha genérica e mal equilibrada, enquanto se curvava a destilados importados. Ver pequenos alambiques familiares disputados por bebedores atentos, com sommeliers discutindo notas de cana fresca e tempo de descanso em madeira nativa com o mesmo rigor dispensado a um single malt escocês, é um movimento de reposicionamento — a cachaça sendo tratada como patrimônio cultural, não como matéria-prima barata de festa.


Nota apurada a partir de cobertura de imprensa sobre a Rua da Cachaça (Jurema Bar, Lapa), a feira do Cadeg e a exposição da Casa Firjan. O gastronomizaê não esteve presencialmente nos eventos e não tem relação comercial com nenhuma das casas ou instituições citadas.

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