O Dia Nacional do Cerrado é 11 de setembro por decreto presidencial de 20 de agosto de 2003. A data homenageia o ambientalista Ary José de Oliveira, conhecido como Ary Pára-Raios, um dos fundadores da Rede Cerrado, e corresponde à data de nascimento dele. É uma das poucas datas de setembro com origem documentada e rastreável, o que já a distingue da maioria.
O cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e ocupa cerca de 22% do território brasileiro. Em Minas, ele não é paisagem distante: é o norte e o noroeste do estado, e é de lá que sai o pequi, o baru, o buriti, a cagaita, o araticum e a macaúba que nos últimos anos apareceram em cardápio de restaurante em Belo Horizonte com destaque de menu e preço de item nobre.
Essa entrada é recente e tem política pública por trás. O programa Pró-Pequi é uma das principais frentes do governo de Minas voltadas ao extrativismo de espécies nativas, e se desdobrou em convênio com a Prefeitura de Montes Claros na casa de R$ 1 milhão. O governo estadual afirma beneficiar 4,8 mil agroextrativistas. Em paralelo, o Sebrae Minas treinou estabelecimentos no uso de ingrediente regional pelo programa Prepara Gastronomia, e Montes Claros lançou a rota Sabores do Gerais, com guia de bares e restaurantes que trabalham a cozinha geraizeira.
Nada disso é pouco, e é honesto reconhecer que o movimento existe. A pergunta que fica em aberto é outra, e é a que este veículo pretende perseguir: quanto do preço final chega em quem colhe.
O extrativismo do cerrado tem uma característica que o diferencia da agricultura: o fruto não é plantado, é coletado, muitas vezes por famílias inteiras, em janela curta de safra, sob condição de trabalho que quase nunca aparece na descrição romântica do menu. O pequi tem safra concentrada. O baru exige quebra da castanha, etapa manual e demorada que é onde o valor efetivamente se agrega, e é a etapa que historicamente ficou fora das mãos de quem colhe.
Entre a cooperativa que compra do extrativista e o prato que sai a preço de entrada de restaurante contemporâneo, existem intermediários, existe processamento e existe uma margem que ninguém publica. Não é acusação. É uma lacuna de informação, e ela é grande o suficiente para merecer apuração em vez de suposição.
Há também uma pergunta mais simples e mais verificável, que qualquer leitor pode fazer sem sair da mesa: de onde veio esse pequi. Fruto de safra ou conserva industrial de origem não declarada são coisas diferentes, com preços de compra muito diferentes, e chegam ao cardápio pelo mesmo nome e frequentemente pela mesma descrição afetuosa sobre o bioma. Uma casa que trabalha com fornecedor rastreável sabe responder de imediato e costuma gostar de responder, porque a resposta é o argumento dela. Uma casa que não sabe responder está vendendo a palavra cerrado, não o cerrado.
É esse o teste que interessa numa data como a de hoje, e é mais útil que qualquer lista de pratos com pequi. O bioma não precisa de celebração. Precisa que a cadeia que o explora seja legível.
Este texto é um ponto de partida declarado: os números de repasse ao extrativista ainda não estão apurados, e a apuração está em curso. Quando estiverem, eles vêm para cá.