O Dia do Irmão não está em calendário oficial nenhum. É comemorado desde 2007, por iniciativa da Igreja Católica, e a data escolhida foi 5 de setembro porque foi o dia em que Madre Teresa de Calcutá morreu, em 1997. Nada disso tem a ver com cozinha, e vale dizer isso antes de qualquer coisa: este texto não vai fingir que existe uma tradição gastronômica do Dia do Irmão.
O que existe é mais interessante e bem mais antigo.
A palavra companheiro vem do latim tardio companio, de cum e panis: aquele com quem se parte o pão. Não é etimologia decorativa. Ela registra que, num certo momento, a única definição prática de proximidade disponível era material. Você não declarava afeto, você dividia a comida, que era escassa, e a divisão dizia tudo o que precisava ser dito.
Em Minas isso sobreviveu de um jeito quase literal. O prato de comer em casa não é servido, é posto no meio. A travessa fica no centro e cada um se serve, e a ordem em que as pessoas se servem, quem espera, quem repete, quem raspa a panela, organiza uma hierarquia doméstica inteira sem que ninguém precise enunciá-la. Quem já almoçou na casa de família mineira sabe que o convite para repetir não é gentileza, é teste. Recusar duas vezes é aceitável. Três é ofensa.
O restaurante quebrou isso, e por uma boa razão. O prato individual é higiênico, é porcionado, é cobrável. A conta dividida por pessoa exige que a comida também seja divisível por pessoa. A mesa de restaurante brasileiro tradicional resistiu mais que a europeia porque manteve a porção para dois, o bode de panela no centro, a picanha na tábua. Ainda existe boteco em Belo Horizonte onde pedir uma porção individual é constrangedor, e não por preço.
O que mudou nos últimos anos foi mais silencioso. A entrega por aplicativo não porcionou a comida, porcionou a refeição. Cada pessoa da casa pede o seu, no horário que quer, do restaurante que prefere, e a mesa vira uma coincidência de horários. A comida continua boa. O que se perdeu é o objeto compartilhado, aquele ponto no meio da mesa para o qual todo mundo tinha que esticar o braço.
Não é nostalgia, e não é um argumento contra aplicativo. É uma observação sobre o que a divisão fazia. Ela obrigava a negociar. Alguém pegava a última coxa, alguém deixava. Havia um custo em ser o que sempre pega mais, e esse custo era social, cobrado ali, na hora, com o olhar. A refeição individual eliminou a negociação junto com o atrito.
Se a data serve para alguma coisa neste veículo, é para essa pergunta prática: quando foi a última vez que você comeu uma comida que precisou ser dividida com alguém? Não pedida junto. Dividida. É diferente, e a diferença aparece na mesa antes de aparecer em qualquer outro lugar.