Toda 6 de setembro reaparece a mesma lista: ostra, chocolate, gengibre, pimenta, morango, canela. Vem embalada como sabedoria antiga e é reproduzida sem checagem por veículo grande e pequeno. Antes de discutir a lista, vale dizer de onde vem a data, porque quase ninguém diz.
O Dia do Sexo não é data oficial. Foi popularizada a partir de uma campanha publicitária de 2008 da Olla, marca de preservativo, e a escolha do 6 de setembro é alusão à posição 69. A campanha tinha objetivo declarado de combater tabu e estimular sexo seguro, o que é defensável. Mas a origem é publicitária, e um veículo que cobra transparência dos outros precisa dizer isso quando usa a data.
Agora a lista.
Ostra. O argumento é o zinco, mineral envolvido na produção de testosterona. A ostra tem zinco de verdade, e bastante. O problema é o salto lógico: deficiência de zinco pode afetar a função sexual, mas isso não significa que ingerir zinco além do necessário aumente qualquer coisa em quem já tem o mineral em nível adequado. Corrigir uma carência não é o mesmo que criar um excedente de efeito. É a diferença entre encher um pneu vazio e continuar bombando um pneu cheio.
Chocolate. Os dois compostos sempre citados são a feniletilamina e a anandamida. Ambos existem no cacau. Ambos são metabolizados no fígado e no intestino antes de chegar em quantidade relevante ao cérebro. A feniletilamina ingerida por via oral é degradada rapidamente pela monoaminoxidase. Para obter o efeito neurológico que os textos sugerem, a dose necessária seria absurda, e o que apareceria antes seria taquicardia e enxaqueca.
Pimenta e gengibre. Aqui existe um efeito real, mas ele é vasodilatação periférica e termogênese. A pessoa fica corada e com a temperatura da pele mais alta. Isso é uma resposta fisiológica ao capsaicínico, não desejo. A confusão entre o sinal corporal e a causa é justamente o mecanismo que sustenta o mito.
O que a evidência mostra é bem menos vendável: o que melhora função sexual de forma consistente é saúde cardiovascular. Fluxo sanguíneo. Dormir. Não fumar. Reduzir álcool, que é o item que mais aparece nas mesas do 6 de setembro e o que mais atrapalha. Uma dieta que protege o endotélio protege também a resposta sexual, porque é o mesmo sistema. É uma resposta chata e não cabe em post de data comemorativa.
Existe ainda o fator que a literatura reconhece e que a lista de alimentos rouba o crédito: expectativa. Comer algo que se acredita ser afrodisíaco produz efeito mensurável, e ele é psicológico. O jantar funciona pelo contexto, pela atenção, pelo tempo dedicado a alguém. Isso é real e não é pouco. Só não é a ostra.
O motivo de este veículo insistir no ponto não é implicância com a data. É que a mesma estrutura de raciocínio, um composto existe no alimento logo o alimento tem o efeito do composto, sustenta metade das alegações de saúde que circulam em cardápio e rótulo. Se ela não se sustenta para a ostra, não se sustenta para o superalimento da vez.