O Dia Mundial do Turismo, 27 de setembro, foi criado pela Organização Mundial do Turismo em 1980. A data marca a aprovação dos estatutos da entidade, em 27 de setembro de 1970, e foi escolhida também por cair na virada entre o fim da alta temporada no Hemisfério Norte e o início dela no Hemisfério Sul. É uma data institucional, com origem clara e documentada, o que neste mês já é exceção.
Em Minas, turismo e comida são praticamente a mesma conversa. O estado não tem litoral, e o que ele vende ao visitante é uma combinação de cidade histórica, estrada e mesa. A comida não é atrativo complementar aqui; é frequentemente o motivo declarado da viagem.
O problema é de distribuição, e ele é antigo.
O turismo gastronômico mineiro se concentra num circuito pequeno e previsível: Tiradentes, São João del-Rei, Ouro Preto, Serro e a região da Serra da Canastra, mais Belo Horizonte como base. São destinos consolidados, com infraestrutura, e não há nada de errado com nenhum deles. O que chama atenção é o que fica de fora.
O norte de Minas, que é onde está o cerrado do estado e de onde sai o pequi, o baru e o buriti que aparecem em cardápio contemporâneo de BH, quase não figura em roteiro gastronômico estruturado. Montes Claros lançou a rota Sabores do Gerais, com guia de bares e restaurantes que trabalham a cozinha geraizeira, e o projeto chegou a ganhar destaque em feira internacional de gastronomia. É um movimento na direção certa e ainda é uma exceção isolada num estado que trata a metade norte do próprio território como periferia turística.
O mesmo vale para o Vale do Jequitinhonha e para boa parte do Triângulo. Existe cozinha, existe produto e não existe rota.
Há uma razão prática para essa concentração, e ela não é má vontade: rota turística depende de estrada, de leito de hospedagem e de sinalização, e essas três coisas seguem a densidade econômica que já existe. Turismo gastronômico não cria infraestrutura, ele se instala onde ela está. Por isso o circuito das cidades históricas se consolidou: a infraestrutura foi construída para outra coisa, o patrimônio colonial, e a comida aproveitou o caminho.
Há também uma armadilha específica desse tipo de turismo, que Minas conhece bem. Quando um destino se consolida pela comida, a comida tende a congelar. O cardápio se ajusta ao que o visitante espera encontrar, e o que o visitante espera encontrar é a versão da cozinha mineira que ele viu em revista. O resultado é uma cidade histórica inteira servindo o mesmo repertório de frango com quiabo e feijão tropeiro em qualidade decrescente, enquanto a cozinha que o morador come segue em outro lugar, geralmente mais barato e sem placa.
Isso não é exclusividade daqui, é o destino de todo lugar que vira roteiro. Mas em Minas dói mais, porque o argumento de venda do estado é justamente autenticidade.
Se a data serve para alguma coisa útil, é para inverter a pergunta padrão. Em vez de perguntar onde comer bem em Tiradentes, que já foi respondida mil vezes, vale perguntar o que existe de cozinha mineira viva a duzentos quilômetros de onde a estrada asfaltada termina. A resposta é o que ainda não foi mapeado, e é onde este veículo pretende ir.