Memória

Réquiem para a Praça de Alimentação: o Fim do Shopping e o Renascimento do Comer na Rua

O fenômeno dos 'shoppings zumbis' nos subúrbios americanos, documentado pelo Washington Post, e o colapso simbólico de redes como a Sbarro escancaram o cansaço da comida de bandeja plástica. O comensal quer ver a fumaça da chapa, não o eco vazio da praça de alimentação.

Por Luiz Lessa 10 de setembro de 2026 ⏱ 4 min de leitura
Réquiem para a Praça de Alimentação: o Fim do Shopping e o Renascimento do Comer na Rua

Há um fenômeno batizado de “zombie mall” — o shopping zumbi — que o Washington Post documentou em profundidade ao acompanhar o declínio do Lakeforest Mall, em Maryland: prédios que continuam de pé, tecnicamente abertos, mas praticamente mortos por dentro, com lojas âncora fechadas e estacionamentos vazios. Há um detalhe nesse tipo de reportagem que ressoa fundo na memória afetiva de quem cresceu nas últimas décadas do século XX: o abandono melancólico das velhas praças de alimentação, antes apinhadas de luz fluorescente, palmeiras de plástico e balcões de franquias de fast-food — a Sbarro, com suas fatias triangulares de massa grossa e queijo borrachudo, tornou-se por si só um símbolo popular desse declínio, citado à exaustão em reportagens e retrospectivas sobre a era de ouro (e o ocaso) dos shopping centers americanos.

Por muito tempo, a praça de alimentação de shopping foi a primeira introdução da classe média urbana à experiência de “comer fora”. Era um ambiente deliberadamente pasteurizado: climatizado, previsível, asséptico e seguro contra os supostos perigos do espaço público. No entanto, pagou-se um preço alto por essa conveniência climatizada: a padronização do paladar e o empobrecimento das receitas tradicionais, achatadas para caber em fichas técnicas congeladas e fritadeiras de alta escala.

O declínio desses monstros de concreto não deve ser lamentado pela gastronomia; deve ser compreendido como sintoma de saturação. As pessoas se cansaram do eco de bandejas plásticas em mesas de fórmica parafusadas no chão. O que vemos emergir nas cidades mais interessantes do mundo — e o Brasil também sinaliza isso, na revitalização de mercados municipais e na força persistente das calçadas de boteco em São Paulo e no Rio — é o desejo de voltar a pisar no asfalto.

O comensal quer ver a fumaça da chapa, quer conversar com o cozinheiro, quer o copo americano servido na mesa bamba da calçada, onde a vida comunitária pulsa sem catraca de estacionamento ou segurança privada vigiando cada passo. O esvaziamento da velha praça de alimentação é o fim de uma ilusão suburbana que tentou trancar a fome coletiva dentro de caixas de gesso. A boa comida pertence à rua, ao vento, ao bairro e à fricção real da vida civil.


Nota editorial. Ensaio de opinião com base na cobertura do Washington Post sobre o fenômeno dos “zombie malls” americanos (caso do Lakeforest Mall, Maryland) e em análises diversas sobre o papel simbólico da rede Sbarro no imaginário de declínio das praças de alimentação — essas duas linhas de apuração vêm de fontes distintas, aqui reunidas para compor o argumento; não há uma única reportagem que amarre os dois fatos. O gastronomizaê não apurou informações adicionais junto às fontes primárias.

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