Toda 7 de setembro alguém publica que o café é o sabor da Independência. É uma imagem boa e a cronologia não a sustenta.
Quando D. Pedro deu o grito, o café não chegava a um quinto do que o Brasil exportava. Os números vêm do estudo de Marcelo de Paiva Abreu e Luiz Aranha Correa do Lago sobre a economia brasileira no Império, publicado como texto para discussão pelo Departamento de Economia da PUC-Rio, e são claros: entre o início e o fim do período imperial, a participação do café nas exportações totais subiu de menos de 20% para mais de 60%. O ponto de virada não é 1822. É o início da década de 1830, quando o café ultrapassa definitivamente o açúcar como principal produto exportado em valor.
O que sustentava a economia do país que se tornava independente era o açúcar, ao lado do algodão e do fumo. Em 1821 e 1822, esses três produtos mais o café respondiam por cerca de dois terços de tudo o que o Brasil exportava, e couros e peles somavam outros 15%.
A distinção não é preciosismo de data. Ela muda o que a comida está dizendo sobre aquele momento.
O açúcar do início do século XIX é o produto do engenho, e o engenho é a unidade produtiva escravista por excelência, com quase três séculos de operação nas costas. A Independência de 1822 não tocou nessa estrutura, e não pretendia tocar. O Estado que nasce naquele setembro é sustentado por um sistema agrário que continuaria escravista por mais 66 anos, até 1888. Quando se diz que o café é o sabor da Independência, o que se faz, sem querer, é trocar um produto por outro e deixar de fora justamente o que o primeiro carregava.
O café também não escapa dessa história, e é importante dizer isso no mesmo parágrafo. Ele assume a liderança nos anos 1830 e financia o Segundo Reinado inteiro sobre a mesma base de trabalho cativo, agora deslocada para o Vale do Paraíba. A diferença não é moral, é cronológica: o café é o produto do Império consolidado, não o da ruptura.
Há ainda um detalhe que interessa particularmente a quem escreve de Minas. O estado não estava no centro dessa história quando ela começou. Na década de 1840, o Rio de Janeiro respondia por quase 80% da exportação de café, São Paulo por 16% e Minas por cerca de 6%. Foi só nos anos 1880 que Minas chegou a algo perto de 21%, com São Paulo em 35% e o Rio caindo para 41%. A vocação cafeeira mineira, que hoje soa como coisa de sempre, é a parte tardia de um ciclo que começou em outro lugar.
O que se comia no Brasil de 1822, por sinal, tem pouca relação com qualquer produto de exportação. A pauta do porto e a mesa do país eram coisas diferentes, e continuam sendo. Mandioca, feijão, milho e carne-seca alimentavam a população; açúcar, algodão e fumo pagavam as contas externas. Confundir uma coisa com a outra é o erro que produz frases como a que abre este texto.
Fica então a versão que os dados sustentam. Em 7 de setembro de 1822, o Brasil era o país do açúcar. O café viria depois, ficaria por muito tempo, e construiria quase tudo o que hoje se entende por identidade nacional em torno de uma xícara. Mas ele chegou atrasado para a festa que se comemora hoje.
Fonte: ABREU, Marcelo de Paiva; CORREA DO LAGO, Luiz Aranha. A economia brasileira no Império, 1822-1889. Texto para Discussão nº 584, Departamento de Economia, PUC-Rio.