A nova safra de cacau da África Ocidental está sob ameaça dupla: El Niño de um lado, pragas e doenças de outro. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a Costa do Marfim — maior produtora mundial — pode ver sua colheita cair cerca de 20%, para 1,75 milhão de toneladas. Gana, a segunda maior, projeta recuo de 13%. O resultado é um excedente global estimado em apenas 25 mil toneladas, bem abaixo do que se previa há poucos meses.
Costa do Marfim e Gana produzem, juntas, mais da metade do cacau consumido no mundo. Quando a safra dessas duas nações vacila, o efeito chega direto ao preço do chocolate nas prateleiras — inclusive nas brasileiras.
Harmattan, chuva demais e doença atrás
O El Niño está intensificando os ventos secos do harmattan, esperados para novembro, num padrão que os produtores dizem estar chegando fora de hora e com mais força. Ao mesmo tempo, chuvas torrenciais em outras janelas do ciclo têm prejudicado o desenvolvimento das vagens, e as condições de frio, nuvens e umidade favorecem doenças — com destaque para a podridão negra, principal ameaça relatada agora, além do capsídeo e de outras pragas que atacam as plantações.
Para completar, o custo de pesticidas e insumos químicos subiu, apertando o caixa de produtores já fragilizados — e em Camarões, a reportagem cita a circulação de pesticidas falsificados como um problema adicional.
O que os produtores estão vendo no campo
“A contagem de vagens até agora é menor do que no mesmo período do ano passado. Não estou tão confiante na próxima safra”, disse Simon Essah, produtor em Gana, à Bloomberg Línea. Na Nigéria, o produtor Enighe Tiku foi na mesma linha: “Não há nada no horizonte que aponte para uma boa colheita na próxima safra.” A Nigéria projeta queda de 2,4% na sua produção, para 288 mil toneladas.
Nem todo relato é pessimista. Jean Kean, produtor na Costa do Marfim, mantém alguma esperança: a umidade do solo no país segue favorável para a aplicação de fertilizantes, o que pode amenizar parte do dano.
Os futuros já reagiram: alta de mais de 70% desde junho
O mercado financeiro já precificou o risco. Os contratos futuros de cacau subiram mais de 70% desde junho de 2026, atingindo o maior nível desde setembro de 2025. É uma reviravolta depois de um ano turbulento: três déficits de oferta consecutivos levaram os futuros negociados em Nova York a recordes no fim de 2024, e os preços em seguida recuaram com a queda no consumo global — o cacau caro afastou comprador.
Agora o pêndulo volta. “Estamos nesse ponto de inflexão em que, pelo menos no que diz respeito ao clima, estamos à espera para ver o que vai acontecer”, disse Oran Van Dort, do Rabobank, à reportagem. Já Jonathan Parkman, do Marex Group, pondera que os estoques atuais, ainda abundantes, oferecem “uma boa margem de segurança para possíveis problemas em 2026-2027” — ou seja, o mercado tem um colchão, mas ele não é ilimitado.
Nota apurada a partir da reportagem “Como El Niño e pragas colocam em xeque a nova safra de cacau na África Ocidental”, da Bloomberg Línea, assinada por Mumbi Gitau, Ekow Dontoh, Baudelaire Mieu, Pius Lukong e Tolani Awere. O gastronomizaê não apurou informações adicionais junto às fontes citadas e não tem relação comercial com a Bloomberg Línea ou com os produtores e analistas mencionados.