Às vésperas do Dia Nacional da Cachaça, celebrado em 13 de setembro desde 2009 — data associada à liberação oficial da produção e comercialização da bebida no Brasil, em 1661, após a chamada Revolta da Cachaça —, chefs de Minas Gerais exploram o destilado brasileiro em pratos doces e salgados, mostra reportagem do caderno Gastrô, do jornal O Tempo.
Da marinada à sobremesa
No restaurante Trintaeum, em Belo Horizonte, o prato “Porco sem Mágoas”, da chef Ana Gabi Costa, carrega uma marinada de copalombo — mistura de cachaça e limão — usada também no acabamento do molho. Já o chef Elmo Barra, da mesma casa, chegou à cachaça pelo contraste: a coxinha de tapioca recheada com carne-seca e queijo coalho ganhou um molho à base de rapadura que precisava de algo para quebrar o doce. “O molho tinha como base a rapadura, então, pra quebrar o doce, testamos a cachaça, que trouxe a acidez e o equilíbrio. Junto com a raspinha de limão, se transformou num molho agridoce”, explica. “O casamento perfeito de sabores.”
No Dorsé Bar, também com participação de Ana Gabi Costa, a cachaça é ingrediente fundamental do molho de rapadura que acompanha uma porção de coxinha — e foi tema de um jantar especial na última quarta-feira (9), ao lado da chef madrinha Janaína Torres, em que todos os pratos levaram o destilado em algum processo.
Já no Casulo, na Lapinha da Serra, a chef Marina Leite trabalha com a cachaça Xavier, produzida na Serra do Cipó: uma reserva envelhecida por dez anos em carvalho aparece como protagonista de um dos tempos do menu degustação, acompanhada de araticum e sorbet de jabuticaba. “Nossas criações são elaboradas a partir dos insumos e produtos da nossa região. Trabalhar com a cachaça tradicional local e premiada agrega muito valor aos nossos pratos”, diz.
No empório e restaurante Minas Demais, o chef Leandro Dorrias criou o “Uairish Coffee” — uma versão do irish coffee com cachaça envelhecida no lugar do uísque, além de café expresso, doce de leite e leite vaporizado. “Por que não usar cachaça no lugar do uísque?”, questiona.
Minas lidera a produção, mas o preconceito ainda pesa
Segundo o Anuário da Cachaça 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o Brasil tinha 1.538 estabelecimentos elaboradores e 8.379 produtos de cachaça registrados em 2025. Minas Gerais lidera com folga: 564 estabelecimentos e 2.922 produtos.
Ainda assim, a reportagem mostra um paradoxo: o país convive com a ideia de que bebida importada é mais sofisticada. “A percepção que o brasileiro sempre teve é inferior à percepção de quem vem de fora”, diz Isadora Fornari, sommelier e especialista em bebidas brasileiras, para quem a cachaça “traz muita complexidade” e é “um dos destilados mais complexos que existem”, com camadas sensoriais de dulçor, acidez, amargor, picância, madeira e untuosidade.
Guilherme Costa, sócio da Cachaçaria Lamparina, no Mercado Novo de Belo Horizonte, aponta a variedade de madeiras — amburana, bálsamo, carvalho, entre outras — como o grande diferencial da cachaça para envelhecimento, cada uma imprimindo características distintas ao destilado. “Falta a nós, consumidores e produtores brasileiros, estar mais abertos ao consumo da cachaça, diminuir esse ruído que existe”, diz, referindo-se à ideia de que a bebida é difícil ou de baixa qualidade — um entendimento que, segundo ele, “acaba se perpetuando, mesmo que venha melhorando muito nos últimos anos”.
Nota apurada diretamente na edição impressa do O Tempo (caderno Gastrô) de 11 de setembro de 2026, matéria assinada por Lorena K. Martins. O gastronomizaê não tem vínculo com o O Tempo nem com os restaurantes citados, e não pagou nem recebeu pagamento para publicar esta nota.