Vinho

Grandes maisons de champanhe apostam na alta gastronomia brasileira para vender além dos brindes

Krug, Moët Chandon e importadoras independentes criam 'embaixadas' em restaurantes estrelados como Tuju e Jean-Georges para associar o champanhe a refeições inteiras, não só a brindes — mercado que ainda representa menos de 1% dos espumantes vendidos no Brasil.

Por Luiz Lessa11 de setembro de 2026

Grandes maisons de champanhe apostam na alta gastronomia brasileira para vender além dos brindes

Foto: Foto: Simon Law/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

As grandes maisons de champanhe estão investindo em parcerias com restaurantes de alta gastronomia no Brasil para tentar expandir o consumo da bebida para além de brindes e casamentos — incluindo harmonizações com carne vermelha, historicamente associada a vinhos tranquilos.

De entrada a sobremesa, incluindo carne vermelha

No restaurante Jean-Georges, no Hotel Tangará, em São Paulo, a nova Sala Ruinart — para 12 pessoas — criou um menu de seis tempos em que um rosé brut acompanha um corte de wagyu grelhado com crocante de gorgonzola, purê de peras e jus de carne.

“No Brasil ainda não existe essa associação direta de gastronomia com champanhe. Só mesmo para quem é mais do mundo do vinho”, diz Adriano Ciavdar, diretor de marketing da Moët Hennessy no Brasil.

Segundo François Hautekeur, gerente de comunicação enológica da Moët Hennessy no país, o champanhe tem trunfos específicos para acompanhar uma refeição inteira: “Vem de uma região das mais frias para os vinhos. Então tem uma acidez alta, um frescor, que permite, por exemplo, quebrar a gordura do prato e tornar a digestão mais fácil, o que tem sido um desejo dos consumidores.” A bebida também mantém graduação alcoólica entre 11% e 12%, enquanto vinhos tranquilos, com o aquecimento global, têm chegado a 15%. Já o champanhe rosé, que leva vinho tinto na elaboração, funciona bem com carne vermelha porque aproxima os taninos das proteínas animais, dando sensação mais cremosa e menos agressiva.

Embaixadas em restaurantes estrelados

A maison Krug já desenvolve menus harmonizados em parceria com restaurantes estrelados em 42 países, com 214 salas — a primeira unidade latino-americana foi no restaurante japonês Kinoshita, em São Paulo, desde 2008. No Brasil, a marca abriu recentemente uma “embaixada” no Tuju, três estrelas Michelin: a cada ano, a maison propõe um desafio a seus “chefs-diplomatas” para criar um menu a partir de um único ingrediente simples — nesta edição, a cenoura.

O grupo Moët Hennessy também mantém o espaço Dom Pérignon no restaurante Cipriani, no Copacabana Palace (Rio de Janeiro), atualmente em reforma, e negocia transformar o Evvai, outro três estrelas do Brasil, em embaixada Moët Chandon — já lançou ali um rótulo de prestígio da marca, o Collection Impériale Création Nº 1, em homenagem aos 280 anos da maison. Já a importadora World Wine, que trabalha com as maisons independentes Pierre Moncuit, Drappier e Barons de Rothschild, monta um projeto semelhante de parcerias com restaurantes.

Um mercado pequeno, mas em crescimento

No Brasil, o mercado de champanhe é de 700 mil garrafas — a Moët Hennessy detém 67% desse total, com crescimento de 8 pontos percentuais nos últimos anos, segundo dados do IWSR de 2025 citados por Ciavdar. “Champanhe representa assim menos de 1% do total de 54 milhões de garrafas de espumantes no Brasil. É um potencial imenso para se trabalhar”, diz.

Globalmente, a LVMH afirmou que seu negócio de champanhe apresentou “sinais encorajadores”, em especial para as cuvées de prestígio, mas o lucro operacional da Moët Hennessy caiu 25% em 2025, para 1,02 bilhão de euros, com a margem recuando de 23% para 19%. A região de Champagne limitou neste ano a quantidade de vinho que pode ser produzida — o “menor índice da era moderna”, exceto pelo ano da Covid —, mas os produtores ainda registraram crescimento de 1,2% nas remessas no primeiro semestre de 2026.


Nota apurada diretamente na edição impressa do Valor Econômico (EU&) de 11 de setembro de 2026, matéria assinada por Angela Klinke. O gastronomizaê não tem vínculo com o Valor Econômico, a Moët Hennessy ou os restaurantes citados, e não pagou nem recebeu pagamento para publicar esta nota.

Fonte: Valor Econômico, EU&, edição impressa de 11 de setembro de 2026 (Angela Klinke)

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