Vinho

270 anos da demarcação do Douro: como uma crise de fraude criou o modelo que hoje se chama denominação de origem

Em 10 de setembro de 1756, um alvará régio assinado sob comando do Marquês de Pombal criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Foram fincados 335 marcos de granito para separar o vinho de exportação do vinho de taberna — o embrião de tudo o que hoje se chama denominação de origem. A Região Demarcada do Douro chega aos 270 anos como uma das pioneiras da demarcação, do cadastro e do controle de qualidade no mundo do vinho.

Por Luiz Lessa2 de setembro de 2026

270 anos da demarcação do Douro: como uma crise de fraude criou o modelo que hoje se chama denominação de origem

Arte do gastronomizaê

Fim dos anos 1750, uma encosta escarpada sobre o rio Douro. Um grupo de homens sobe penosamente o terreno de xisto, carregando em varas e cordas um bloco de granito de mais de um metro. O marco é fincado na terra, com uma única palavra gravada na face: “Feitoria”. Dentro dos limites daquele marco, o vinho fino, apto à exportação e aos melhores preços; fora deles, o vinho comum das tabernas. A operação se repetiria centenas de vezes, até somar 335 marcos espalhados pelas serras — e, em 10 de setembro de 2026, essa demarcação completa 270 anos.

Um vale em crise

A vocação vinhateira do Douro é antiga — há vestígios de produção de vinho na região desde a ocupação romana, no século I —, mas foi na segunda metade do século XVII que os vinhos durienses ganharam o mundo, quando começaram a ser embarcados pela cidade do Porto rumo à Inglaterra, batizados nos registros alfandegários com o nome que os consagraria: Vinho do Porto. O Tratado de Methuen, assinado em 1703, garantiu tarifas privilegiadas aos vinhos portugueses no mercado britânico e fez explodir as exportações. Comerciantes ingleses instalados no Porto, a poderosa Feitoria Inglesa, passaram a dominar o negócio, comprando as colheitas e ditando os preços.

Entre as décadas de 1730 e 1750, a produção cresceu mais rápido que a demanda, os estoques se acumularam e os preços despencaram. Multiplicaram-se as fraudes: vinhos de outras regiões eram vendidos como Douro, e mostos fracos ganhavam cor e corpo com o famigerado suco de baga de sabugueiro, além de açúcar e outros artifícios. Os ingleses, alegando adulteração generalizada, simplesmente pararam de comprar — ou passaram a pagar valores irrisórios. Arruinados, os grandes lavradores durienses foram bater à porta do governo, e suas queixas chegaram ao homem forte do reinado de D. José I: Sebastião José de Carvalho e Melo, que a história consagraria como Marquês de Pombal.

O golpe de mestre de Pombal

Pragmático e incomodado com o domínio estrangeiro sobre o comércio português, Pombal viu na crise do Douro a oportunidade perfeita para aplicar sua doutrina mercantilista. A resposta veio na forma do alvará régio de 10 de setembro de 1756, que instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, mais tarde conhecida como Real Companhia Velha. Não era apenas uma empresa: era um instrumento de Estado, dotado de poderes extraordinários para disciplinar toda a cadeia do vinho duriense — demarcar a região produtora, elaborar o cadastro das vinhas, fixar preços mínimos, fiscalizar a qualidade, certificar o vinho apto à exportação e combater as fraudes, inclusive com a ordem expressa de arrancar os sabugueiros da região para eliminar na raiz a matéria-prima da adulteração.

A medida não foi recebida com unanimidade. Os ingleses protestaram contra a perda de poder e, em fevereiro de 1757, a alta no preço do vinho vendido nas tabernas do Porto provocou o chamado Motim dos Borrachos, revolta popular contra a Companhia que Pombal reprimiu com brutalidade exemplar, com condenações à morte e degredos. O recado estava dado: a nova ordem do vinho não seria negociável.

335 marcos de granito

Criada a Companhia, era preciso responder à pergunta fundamental: onde, exatamente, nasce o verdadeiro vinho do Douro? Entre 1757 e 1761, comissões percorreram o vale naquela que ficou conhecida como a Demarcação Pombalina. Por aviso de 28 de julho de 1757, Pombal mandou demarcar as duas margens do rio Douro e os terrenos que produziam as diferentes qualidades de vinho. Para materializar os limites, foram fincados 201 marcos de granito; em 1761, uma segunda campanha acrescentou outros 134, completando os 335 marcos pombalinos — muitos dos quais ainda resistem, espalhados por encostas, muros e até paredes de casas da região.

A demarcação não era apenas geográfica: era qualitativa. Dentro dos limites, as vinhas foram cadastradas e os vinhos classificados em categorias. No topo, o “vinho de feitoria”, o vinho fino, único autorizado a ser exportado para a Inglaterra e vendido pelos melhores preços. Abaixo, o “vinho de ramo”, destinado ao consumo interno e às tabernas. Nascia ali um princípio revolucionário: o de que a origem e a qualidade da vinha determinam o destino comercial do vinho — o embrião de tudo o que hoje se chama denominação de origem, numa arquitetura completa de delimitação territorial, cadastro, classificação, certificação e controle institucional que não encontra paralelo em nenhuma outra região do planeta na época.

Vale o registro histórico: o Douro não estava sozinho nessa corrida. Houve delimitações vitícolas anteriores, como a de Chianti, na Toscana, decretada por Cosimo III em 1716, e a de Tokaj, na Hungria, nos anos 1730; os historiadores debatem até hoje a quem cabe o título de pioneiro. O que se pode dizer com segurança é que o Douro foi uma das primeiras regiões demarcadas do mundo, e possivelmente a primeira a reunir num mesmo sistema a demarcação física do território, o cadastro das parcelas, a classificação dos vinhos e um organismo com poderes legais de controle e certificação.

Avanços, recuos e reconstruções

A história da demarcação está longe de ser uma linha reta. Ainda no século XVIII, a rainha D. Maria I — crítica da política monopolista pombalina — promoveu novas demarcações em 1788 e 1793, ampliando a área classificada. Na mesma época, a demolição do rochedo do Cachão da Valeira, concluída em 1792, abriu a navegação do rio para montante e permitiu que a viticultura avançasse Douro adentro, em direção à fronteira espanhola.

O século XIX trouxe turbulências em série. Com o triunfo do liberalismo, a Companhia foi perdendo seus privilégios a partir de 1834. As pragas chegaram em ondas devastadoras: primeiro o oídio, nos anos 1850, depois a filoxera, a partir dos anos 1860, que arrasou vinhedos inteiros e deixou como cicatriz os “mortórios”, socalcos abandonados. E, em 1865, o ideário do livre-câmbio fez o impensável: aboliu a demarcação. Durante quatro décadas, qualquer vinho pôde chamar-se Porto.

A reação veio no início do século XX. Em 10 de maio de 1907, um decreto do governo de João Franco restaurou a região demarcada, agora estendida até o Douro Superior, desenhando no essencial os limites que conhecemos hoje. Nos anos 1930, o Estado Novo montou a arquitetura institucional que regeria o setor por décadas: a Casa do Douro (1932), representando a lavoura; o Grêmio dos Exportadores; e o Instituto do Vinho do Porto (1933), órgão certificador que, em 1942, tornou obrigatório o selo de garantia nas garrafas. Em 2003, a fusão das competências sobre o Vinho do Porto e os vinhos tranquilos da denominação Douro deu origem ao atual IVDP — Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto.

O curioso sistema de classificação das vinhas

Se a demarcação pombalina foi pioneira, o Douro do século XX levou a obsessão classificatória a um patamar sem paralelo em nenhuma outra região do planeta. Os critérios modernos de seleção das uvas aptas ao Vinho do Porto foram fixados pela primeira vez em 1935, por portaria ministerial. Mas foi em 1947 que o engenheiro Álvaro Moreira da Fonseca, debruçado sobre os elementos do cadastro, criou o chamado Método da Pontuação — até hoje conhecido, simplesmente, como método Moreira da Fonseca.

A lógica é tão engenhosa quanto singular. Cada parcela de vinha da região é avaliada segundo 12 parâmetros ponderados, agrupados em fatores geográficos, climáticos e culturais: localização, altitude, exposição, inclinação, natureza do terreno, pedregosidade, abrigo, castas, idade da vinha, compasso de plantação, sistema de condução e produtividade. Cada fator soma ou subtrai pontos, e a nota final enquadra a parcela numa escala de letras, de A, para as melhores vinhas, até F.

O detalhe que torna o sistema único no mundo: a letra não é um rótulo honorífico, mas a chave de um mecanismo econômico chamado benefício. A cada vindima, o IVDP define a quantidade total de mosto que pode ser fortificado e transformado em Vinho do Porto, decisão que leva em conta os estoques e as perspectivas de mercado. Essa cota é então distribuída pelos cerca de 20 mil viticultores da região proporcionalmente à classificação de suas parcelas: quanto melhor a letra, mais litros por hectare a vinha tem direito de “beneficiar”. Para se ter uma ideia concreta, na vindima de 2017 uma parcela classificada com a letra C pôde produzir 1.953 litros de mosto generoso por hectare. Da superfície total de vinha da região — cerca de 43 mil hectares, dentro de uma Região Demarcada que se estende por 250 mil —, apenas cerca de 26 mil hectares estão autorizados a produzir Vinho do Porto.

Patrimônio Mundial

Em 14 de dezembro de 2001, na 25ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco, realizada em Helsinque, o Alto Douro Vinhateiro foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial na categoria de Paisagem Cultural Evolutiva e Viva. A área classificada abrange 24.600 hectares — cerca de um décimo da Região Demarcada — distribuídos por 13 municípios ao longo do rio, com uma zona de amortecimento de mais de 225 mil hectares. A distinção premiou exatamente aquilo que 270 anos de demarcação ajudaram a construir: uma paisagem que é obra combinada do homem e da natureza, onde os socalcos sustentados por muros de xisto erguidos à mão ao longo de gerações, os mortórios da filoxera, as quintas históricas e as vinhas ao alto das reconversões modernas compõem um documento vivo em transformação — daí a categoria “evolutiva e viva”, que reconhece o Douro não como relíquia tombada, mas como organismo em funcionamento, onde se continua a plantar, vindimar e vinificar.

Ao brindar aos 270 anos, o mundo do vinho celebra a invenção de um princípio que hoje parece óbvio, mas que precisou ser gravado em 335 pedras de granito para existir: o de que o vinho é, antes de tudo, a expressão de um lugar; e que esse lugar merece ter nome, limites e lei.


Nota apurada a partir da reportagem “A origem das origens?”, de Arnaldo Grizzo, publicada na edição 251 (setembro de 2026) da revista ADEGA. O gastronomizaê não participou da apuração original, não teve acesso a fontes primárias além do texto publicado e não tem relação comercial com a revista ADEGA, o IVDP ou qualquer produtor citado.

Fonte: Revista ADEGA, edição 251 (setembro 2026), seção Curiosidades, reportagem de Arnaldo Grizzo — 'A origem das origens?' (págs. 73-78)

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