Restaurantes

Emiliano faz 25 anos e entrega o Cena a Vinicius Pires; a Veja SP conta metade do Bocuse d'Or dele

O hotel da Oscar Freire completa 25 anos e reabre seu restaurante, repaginado por Arthur Casas, com um chef de currículo forte: seis anos no Evvai e a vitória na etapa nacional do Bocuse d'Or. A reportagem da Veja SP, publicada em 21 de agosto, não menciona o que aconteceu em Nova Orleans três semanas antes — nem que o editor do guia da própria revista é quem assina o elogio ao chef.

Por Luiz Lessa27 de agosto de 2026

Emiliano faz 25 anos e entrega o Cena a Vinicius Pires; a Veja SP conta metade do Bocuse d'Or dele

Arte do gastronomizaê

O hotel Emiliano completa 25 anos em São Paulo e dez no Rio de Janeiro, e usou a data para refazer seus restaurantes. Na Oscar Freire, o Cena foi todo repaginado por Arthur Casas — o mesmo arquiteto do projeto original de 2001 — com mais abertura e contato visual com a cozinha. Quem assume a cozinha é o chef Vinicius Pires, na primeira posição de comando da carreira dele. Em Copacabana, o restaurante Emile fica com o chef argentino Bernabé Simón Padrós.

É uma notícia legítima e a reportagem que a trouxe, assinada por Alice Granato na Veja São Paulo de 21 de agosto, tem informação boa. Só que ela deixa de fora duas coisas — e as duas mudam como se lê o resto.

O currículo do chef é maior do que a revista conta

Comecemos pelo que joga a favor do Pires, e que a matéria menciona de passagem.

Ele passou seis anos no Evvai, ao lado de Luiz Filipe Souza. A revista diz isso e para por aí. O que não diz é que, em abril deste ano, o Evvai recebeu três estrelas Michelin — ele e o Tuju foram os primeiros restaurantes da América Latina a chegar lá. Pires saiu de uma das duas cozinhas mais condecoradas do continente. É a linha mais forte do currículo dele, e ficou de fora.

Em 26 de janeiro de 2026, Pires venceu a etapa nacional do Bocuse d’Or Brasil, num processo com cerca de 50 candidatos. O prato foi construído em torno do tucupi, escolhido justamente por ser sul-americano e de identidade forte. Isso a revista conta.

O que ela não conta é o que veio depois

A etapa nacional não é o fim da linha. Ela classifica para a seletiva continental, e a seletiva continental é que dá vaga na final mundial de Lyon.

O Bocuse d’Or Americas aconteceu em Nova Orleans, entre 24 e 26 de julho de 2026 — três semanas e meia antes de a Veja SP ir para as bancas. Oito países competiram: Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos e México. O Brasil foi com Pires como chef, Pedro Pavilionis como commis e Rubens Salfer como coach.

Cinco vagas para Lyon. Ficaram com elas, nesta ordem: Estados Unidos (Vincenzo Loseto), Canadá (Keith Pears), Colômbia (Juan Buitrago), México (Raúl Soto) e Argentina (Eliel Buttice). O Brasil não está entre os cinco. A ordem exata do sexto ao oitavo lugar não foi divulgada.

Registre-se com clareza, porque a frase pode soar pior do que é: não classificar não é fracasso. Eram oito países e cinco vagas, contra programas como o americano e o canadense, que competem há décadas com estrutura de treino permanente. A Academia Brasil D’Or é recente. Chegar à seletiva continental já é o teto histórico da maioria dos países da região.

O ponto não é o resultado. É que a reportagem descreve o chef como quem “venceu a etapa nacional deste ano do Bocuse d’Or” — no presente, como credencial em aberto — quando a etapa seguinte já tinha acontecido e o desfecho já era público. O leitor sai achando que Lyon ainda está em jogo.

Quem endossa quem

A segunda ausência é de outra natureza.

O elogio central ao chef, na reportagem, é uma citação de Arnaldo Lorençato: “Vinicius estreia com brilho em carreira solo no Cena. Ele é hoje um dos nomes mais promissores da nova geração e, não por acaso, finalista ao título de chef revelação do guia anual VEJA SÃO PAULO COMER & BEBER, que será lançado em 11 de setembro.”

Lorençato é o editor-executivo desse guia. Ou seja: a revista publica uma reportagem elogiosa sobre um chef; quem assina o elogio é o editor do prêmio da própria revista; o chef é finalista desse prêmio; e a própria citação já entrega a data de lançamento do guia. O texto informa o cargo dele, o que é bom. Não informa que isso configura uma cadeia fechada.

Vale lembrar que o expediente da Veja São Paulo traz, em letra miúda, a frase “VEJA SÃO PAULO não admite publicidade redacional”. Não há nenhum indício de que esta matéria seja paga, e não é isso que está sendo dito aqui. O que está sendo dito é que a régua que a revista aplica a si mesma é alta, e uma reportagem em que todas as fotos são de divulgação, o tom é celebratório em primeira pessoa e a fonte de avaliação é um funcionário do próprio veículo merece ser lida sabendo disso.

Um dado de contexto, que não é acusação nenhuma: o circuito brasileiro de alta gastronomia é pequeno a ponto de esses laços serem inevitáveis. Luiz Filipe Souza, chefe de Pires por seis anos no Evvai, preside a Academia Brasil D’Or, a entidade que organiza a seletiva brasileira do Bocuse d’Or, e declarou publicamente que Pires era “o candidato mais bem preparado que o Brasil poderia ter”. É o presidente da entidade apoiando o campeão dela — normal, e sem nada de irregular. Registro porque a mesma pergunta se repete em todas essas histórias: quem avalia, e o que o avaliador tem com o avaliado. Quando a resposta aparece no texto, o leitor decide. Quando não aparece, decide o veículo.

O Rio

O Emiliano do Rio, na Praia de Copacabana, faz dez anos. O prédio é de Arthur Casas em coautoria com o americano Chad Oppenheim, e a recepção tem um painel de Roberto Burle Marx.

O restaurante Emile ficou com Bernabé Simón Padrós, argentino que passou quase uma década no Peru trabalhando ao lado de Pía León — chef do Kjolle, cofundadora do Central e eleita melhor chef mulher do mundo pelo 50 Best em 2021. É uma contratação séria, e a matéria acerta ao dar espaço a ela.

Os dois hotéis conquistaram o selo Empresa B, certificação internacional de impacto socioambiental e de governança.

O que vamos publicar

O Cena entra na fila de visita. Como sempre: sem aviso, conta paga, e nota de 1 a 5 facas — a régua está publicada. Chef com esse currículo em primeira cozinha própria é exatamente o tipo de estreia que merece ser vista de perto, e não pelo release.

Vale notar o calendário: São Paulo tem dois guias saindo em duas semanas. O Prêmio Paladar, do Estadão, é entregue em 31 de agosto; o Comer & Beber, da Veja SP, sai em 11 de setembro. Vamos ler os dois com a mesma régua.


Nota factual. O gastronomizaê não visitou o Cena nem o Emile, não tem relação com o hotel Emiliano e não participa de nenhum dos guias citados. A reportagem de origem é de Alice Granato, publicada na Veja São Paulo de 21 de agosto de 2026, seção Hotelaria, páginas 22 a 25 — dela vêm os dados sobre a reforma, o projeto de Arthur Casas, o selo Empresa B, a citação de Arnaldo Lorençato e a trajetória de Bernabé Simón Padrós. O resultado do Bocuse d’Or Americas 2026 e a composição da delegação brasileira foram apurados em fontes independentes da revista. As três estrelas do Evvai constam do Guia Michelin Brasil 2026. Não foi solicitado contraditório: a nota trata de material já publicado e de resultado público de competição, e não imputa irregularidade a nenhuma pessoa citada.

Fonte: Veja São Paulo, edição de 21/08/2026

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