O especialista em vinhos Jorge Lucki dedicou sua coluna semanal no Valor Econômico ao desafio que produtores europeus enfrentaram na safra de 2026: preservar o que ele prefere chamar de “frescor” — a sensação de vivacidade que vem, em boa medida, da acidez do vinho — diante de um verão marcado por calor intenso e seca em boa parte da Europa.
Por que o calor derruba a acidez
Segundo Lucki, dois ácidos respondem pela maior parte da acidez natural das uvas: o tartárico, relativamente estável, e o málico, muito mais sensível ao calor — ele se consome pela própria respiração da uva à medida que as temperaturas sobem. Temperaturas elevadas por períodos prolongados aceleram a maturação e provocam queda rápida da acidez, obrigando o produtor a escolher entre esperar a maturação fenólica ideal (arriscando uvas com álcool potencial excessivo e pouco frescor) ou antecipar a vindima (com risco de taninos e aromas ainda não completamente maduros).
Borgonha colheu cedo, Bordeaux correu contra o tempo
A Borgonha viveu uma vindima extraordinariamente precoce em 2026: algumas uvas destinadas a espumantes foram colhidas ainda na primeira quinzena de agosto. Para a região, isso é especialmente sensível, já que chardonnay e pinot noir não dependem de grande concentração para produzir seus melhores vinhos — mas Lucki nota que 2026 pode ser um dos anos em que a cabernet sauvignon (usada em menor escala na região) se beneficia justamente daquilo que normalmente é sua desvantagem: o ciclo mais longo, que evita a colheita apressada.
Em Bordeaux, onde a vindima ainda não havia começado no momento em que a coluna foi escrita, os merlots — naturalmente mais precoces — avançaram rapidamente na maturação, e algumas parcelas já mostravam desidratação dos bagos e concentração excessiva de açúcar. A cabernet sauvignon local seguiu outra trajetória, mais tardia, conservando fruta mais fresca e maior equilíbrio. Lucki cita o solo argiloso de Pomerol, que funciona como reserva de água e permite à merlot enfrentar períodos secos em situação privilegiada, e aposta que Saint-Estèphe pode repetir os bons resultados de 2003, safra de referência em calor.
”A safra 2026 ainda está longe de poder ser julgada”
Para Lucki, o desafio foi — e continua sendo — preservar aquilo que ele chama de frescor: “É uma inversão que diz muito mais sobre o vinho do que qualquer número no termômetro.” Ele encerra a coluna afirmando que ainda é cedo para avaliar a safra europeia de 2026 por completo.
Nota apurada diretamente na edição impressa do Valor Econômico (EU&) de 11 de setembro de 2026, coluna assinada por Jorge Lucki. O gastronomizaê não tem vínculo com o Valor Econômico nem com Jorge Lucki, e não pagou nem recebeu pagamento para publicar esta nota.