Vinho

'Tomar vinho fora de casa está virando frustrante', diz auditor do Banco Central que lançou livro sobre economia do vinho

Em entrevista à Folha, o economista e sommelier Mauro Salvo, autor de 'Ensaios de Economia do Vinho', diz que as margens de restaurantes sobre garrafas são injustificáveis e explica por que o vinho brasileiro é caro mesmo com alta tributação.

Por Luiz Lessa11 de setembro de 2026

'Tomar vinho fora de casa está virando frustrante', diz auditor do Banco Central que lançou livro sobre economia do vinho

Foto: Foto: Photos Public Domain/Wikimedia Commons (domínio público)

Economista com mestrado e doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, auditor do Banco Central e sommelier formado pela ABS-RS, Mauro Salvo, 58, bebe vinho há 40 anos — e diz que se sente “um idiota” quando pede a bebida fora de casa. O motivo: os preços praticados por restaurantes, segundo ele, não se justificam.

Salvo acaba de lançar o livro “Ensaios de Economia do Vinho” (Diálogo Freiriano, 178 páginas, R$ 79,90), em que discute a reputação dos rótulos brasileiros e a falta de informação sobre a bebida.

”Agora temos que recompor margens”

Para o economista, o problema não é a qualidade do vinho nacional — que hoje passou a ser bem visto, com mais seriedade na produção e ajuda da tecnologia —, mas o preço final ao consumidor. Ele cita um exemplo pessoal: em Santa Catarina, pagou R$ 180 por um espumante nacional que custa R$ 90 no varejo, o dobro do preço.

“Os intermediários costumam dizer ‘agora temos que recompor margens’, e o preço final nunca cai”, afirma.

Sobre por que o vinho é caro no Brasil mesmo entre os importados, Salvo aponta a alta tributação — a cesta básica tem carga tributária de cerca de 25%, e bebida alcoólica recebe tributação ainda maior — somada ao que chama de “efeito preço-guarda-chuva”: como o vinho estrangeiro chega ao país por R$ 300, o produtor nacional que venderia o seu por R$ 150 acaba cobrando R$ 250, “já que o consumidor paga R$ 300 naquele”.

Reputação, prêmios e “poda invertida”

Salvo explica que o problema de reputação do vinho brasileiro nasceu quando produtores migraram da uva de mesa para o vinho fino e escolheram a cabernet sauvignon, uma casta de maturação tardia, num terroir que não era ideal para ela — no Rio Grande do Sul, a colheita tem clima úmido, o que gera vinhos “herbáceos” ou “aguados”. A situação mudou: hoje os vinhos brasileiros são mais premiados, e ele usa como referência principalmente a Decanter, da Inglaterra, que considera a mais séria.

Questionado sobre o boom de novos projetos de vinho no país, Salvo é cético: “Estamos vendo no Brasil muitos novos projetos com a poda invertida. Muitos desses projetos não são viáveis e só existem porque o dono gosta de investir em vinho como hobby”, diz, citando o caso comum de milionários que ganharam dinheiro com mineração ou soja e replicam parte da fortuna em um projeto de enoturismo deficitário.


Nota apurada diretamente na edição impressa da Folha de S.Paulo (caderno Comida) de 11 de setembro de 2026, entrevista assinada por Isabelle Moreira Lima. O gastronomizaê não tem vínculo com Mauro Salvo, e não pagou nem recebeu pagamento para publicar esta nota.

Fonte: Folha de S.Paulo, Comida, edição impressa de 11 de setembro de 2026 (entrevista de Isabelle Moreira Lima)

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