Em 2025 o mundo bebeu menos vinho do que em qualquer ano desde 1957: 208 milhões de hectolitros, queda de 2,7% sobre 2024, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho. Nove dos dez maiores mercados encolheram.
E o Brasil apareceu no relatório com alta de 41,9% — o maior crescimento do planeta. O número correu a imprensa brasileira e portuguesa, virou manchete de portal de agronegócio e argumento de venda.
Ele está corretamente calculado. E significa muito menos do que parece.
O que a OIV mede quando diz “consumo”
A OIV não vai a supermercado nem a restaurante contar garrafa. Ela calcula consumo aparente, por uma fórmula simples:
produção + importações − exportações
É um indicador de oferta disponível no país, não de sede. Funciona bem para comparar mercados grandes e maduros ao longo de séries longas, porque os ruídos se diluem. Funciona mal quando um dos componentes da conta dá um solavanco.
Foi exatamente o que aconteceu aqui. A produção brasileira de 2024 foi atípica e caiu quase pela metade, para 1,6 milhão de hectolitros. Em 2025 voltou ao normal: 2,8 milhões, alta de 80,6%. Quando você joga essa recuperação numa fórmula que soma produção, o “consumo aparente” salta junto.
O 41,9% não é a medida de brasileiros bebendo mais. É a medida da base de 2024 voltando ao lugar.
Os números que medem venda
A publicação especializada A Vindima levantou o problema e trouxe duas alternativas, ambas de quem acompanha a comercialização e não a fórmula:
- Pela CENECOOP, a comercialização real no mercado cresceu 4,4%.
- Pela análise da Ideal BI, a oferta ao mercado subiu 8%, totalizando 54,5 milhões de caixas, ou cerca de 490 milhões de litros.
Quatro por cento e meio contra quarenta e dois. A diferença entre os dois números não é detalhe estatístico: é a diferença entre um mercado em expansão explosiva e um mercado crescendo bem, num ano em que o mundo inteiro recuou. O segundo cenário já é uma boa notícia. Não precisa do primeiro.
A ressalva importa porque o número inflado circulou entre produtores e exportadores em busca de sinal de investimento. Decisão de plantio e de importação se toma com base em demanda, e a fórmula da OIV não mede demanda.
Registre-se que o resto do retrato brasileiro é sólido e não depende dessa conta: a área de vinhedos chegou a 91 mil hectares, alta de 9,6% e quinto ano consecutivo de crescimento, e o consumo em volume, 4,4 milhões de hectolitros, é de fato o maior já registrado no país.
E a queda global, é real?
Sim — e aqui a mesma ressalva joga a favor do dado.
O consumo aparente é um proxy imperfeito ano a ano, mas ao longo de 68 anos os solavancos de safra se cancelam e a tendência aparece. Estados Unidos, o maior mercado, com 15% da demanda global, caiu 4,3%. A Itália caiu 9,4%, a China 13%, a Rússia 5,5%, a Espanha 5,2%, a Alemanha 4,3%, a França 3,2%. Na contramão subiram Portugal (5,6%), Japão (6,8%) e Romênia (11%).
A garrafa perdeu espaço para cerveja, destilado e abstinência. Isso é estrutural, não é ruído de safra.
Medição e projeção não são a mesma coisa
O dado da queda costuma vir emparelhado com o do enoturismo, e vale separar os dois.
O enoturismo deve chegar a US$ 138,4 bilhões até 2033, com crescimento de 13,4% ao ano. É um número que circula muito, e a fonte é a Persistence Market Research, uma consultoria de pesquisa de mercado. Não é uma medição: é uma projeção comercial, produzida para ser vendida a quem investe no setor.
Isso não a invalida. Só a coloca noutra categoria. Uma queda medida pela OIV e uma alta projetada por uma consultoria para daqui a sete anos são objetos diferentes, e a manchete que junta as duas — “consumo cai, enoturismo dispara” — trata as duas como se fossem o mesmo tipo de fato.
Ajuda saber a base, que raramente é citada: a mesma consultoria avalia o mercado em US$ 57,4 bilhões em 2026. Ou seja, a projeção é de pouco mais que dobrar em sete anos. Continua sendo muito. Mas “dobrar” é uma informação que o leitor consegue julgar; “US$ 138,4 bilhões” solto não é.
Na mesma linha: a Europa concentrou 42% do mercado de turismo do vinho em 2025 e a Ásia-Pacífico, com 32%, cresce mais rápido, a 15,2% ao ano. E, segundo a Universidade Hochschule Geisenheim, 88% das vinícolas do mundo já oferecem experiências turísticas, que respondem por cerca de um quarto da receita — 28% nas pequenas contra 17% nas grandes. A dependência é maior nas pequenas, o que também significa que são as mais expostas se a temporada frustrar.
O Brasil tem mais de uma serra
A leitura de que o valor migrou da taça para a paisagem está certa, e a Serra Gaúcha é o exemplo óbvio: o Vale dos Vinhedos recebe mais de 450 mil visitantes por ano e as experiências vendidas no Rio Grande do Sul subiram 57,8% sobre 2024, conforme dados citados pela coluna de Marcelo Copello na Veja São Paulo desta semana, que é o gancho desta nota.
Só que não é mais o único endereço.
Nesta sexta, 28, a ONU Turismo apresenta em Tiradentes o guia de rotas do vinho feito com a revista Adega — e Minas entra com 11 vinícolas, entre a Serra da Mantiqueira e o Sul de Minas. A rota que liga São Paulo, Minas e Rio é a novidade real no mapa mundial do vinho, e ela existe por uma razão técnica: a dupla poda, adaptada pela Epamig a partir dos anos 2000, que joga a maturação da uva para o inverno seco e tirou a colheita de janeiro para julho.
Se a tese é que o Brasil não vence por quantidade nem por preço, e que a experiência se constrói com paisagem, hospitalidade e narrativa, então vale registrar que existe uma segunda região montando exatamente isso — a 300 quilômetros do maior mercado consumidor do país, com um argumento enológico próprio e um festival de gastronomia que já traz a ONU Turismo para lançar guia lá dentro.
O que vamos publicar
Vamos atrás das 11 vinícolas mineiras do guia, que não foram divulgadas. E, na próxima rodada de dados da OIV, esta nota volta com a comparação: se o consumo aparente brasileiro cair em 2026 sem que ninguém tenha bebido menos, é porque a base normalizou — e aí o teste desta leitura fica pronto.
Nota de dados. Os números globais e brasileiros de 2025 são do relatório da OIV sobre o setor vitivinícola mundial. A ressalva metodológica sobre o consumo aparente e os números alternativos de CENECOOP e Ideal BI foram apurados a partir da reportagem da publicação especializada A Vindima, e a fórmula do indicador é a definição pública da própria OIV. A projeção de enoturismo é da Persistence Market Research, empresa de pesquisa de mercado, e está identificada como projeção no texto. Os dados de Hochschule Geisenheim, do Vale dos Vinhedos, do Rio Grande do Sul e do faturamento do setor foram citados na coluna de Marcelo Copello publicada na Veja São Paulo de 21 de agosto de 2026, que serviu de gancho para esta nota; não os verificamos de forma independente e estão atribuídos a ela. O gastronomizaê não tem relação comercial com nenhuma das entidades citadas.