O Prêmio Paladar 2026 foi entregue nesta segunda-feira, 31 de agosto, no Hotel Rosewood São Paulo. São 30 premiados: os 10 melhores restaurantes da cidade, os 10 melhores bares e 10 destaques do ano.
Na nota que publicamos há quatro dias, quando saiu o primeiro nome, registramos duas mudanças em relação a 2025: o prêmio encolheu de 60 para 30 premiados, e o júri, que no ano passado foi apresentado com nome e sobrenome, desta vez ficou em sigilo. Prometemos voltar com a leitura cruzada.
Ela está aqui, e o resultado é mais interessante do que esperávamos.
Os 10 melhores restaurantes
- Tuju
- Evvai
- Nelita
- Cepa
- Aiô
- Ryo
- Maní
- Aizomê
- Metzi
- Clandestina
Os 10 melhores bares
- Tan Tan
- Boca de Ouro
- Fel
- The Punch
- Caledonia
- Fifty Fifty
- Coda
- Santana
- Picco
- Kuromoon
Os 10 destaques do ano
| categoria | premiado |
|---|---|
| Personalidade da Gastronomia | Mara Salles, do Tordesilhas |
| Voz da Gastronomia | Patrícia Ferraz |
| Chef Revelação | Rhaiza Zanetti, do Miyabi |
| Melhor Confeiteira | Verônica Kim, da By Kim |
| Padeiro do Ano | Léo Akira Urata, da Mirá |
| Baristas do Ano | Julia e Nadia Nasr, do Cafetina |
| Sommelier do Ano | Marcelo Fonseca, do Evvai |
| Bartender do Ano | Rachel Louise |
| Prata da Casa | Josafá Menino da Silva, do Mocotó |
| Gastronomia de Impacto | Gastronomia Periférica |
O prêmio encolheu, mas não renovou
Aqui está o dado central desta nota.
Dos 20 nomes que compõem as listas de restaurantes e bares de 2026, 18 já estavam nas listas de 2025. Houve exatamente duas estreias em vinte vagas: o Aizomê, entre os restaurantes, e o Coda, entre os bares.
Nos restaurantes, o movimento foi este:
| 2026 | casa | em 2025 |
|---|---|---|
| 1º | Tuju | 1º — mantém |
| 2º | Evvai | 4º — sobe 2 |
| 3º | Nelita | 11º — sobe 8 |
| 4º | Cepa | 7º — sobe 3 |
| 5º | Aiô | 8º — sobe 3 |
| 6º | Ryo | 17º — sobe 11 |
| 7º | Maní | 3º — cai 4 |
| 8º | Aizomê | estreia |
| 9º | Metzi | 12º — sobe 3 |
| 10º | Clandestina | 10º — mantém |
E nos bares:
| 2026 | casa | em 2025 |
|---|---|---|
| 1º | Tan Tan | 1º — mantém |
| 2º | Boca de Ouro | 5º — sobe 3 |
| 3º | Fel | 4º — sobe 1 |
| 4º | The Punch | 8º — sobe 4 |
| 5º | Caledonia | 6º — sobe 1 |
| 6º | Fifty Fifty | 17º — sobe 11 |
| 7º | Coda | estreia |
| 8º | Santana | 14º — sobe 6 |
| 9º | Picco | 3º — cai 6 |
| 10º | Kuromoon | 20º — sobe 10 |
Cortar de 20 para 10 obriga a deixar dez casas de fora. A pergunta é quais. E a resposta é que os cortados não foram os mais fracos.
Saiu o Fame, que era o segundo colocado de 2025 e tem estrela Michelin. Saiu o D.O.M., quinto em 2025 e o único restaurante com duas estrelas de São Paulo. Saiu A Casa do Porco, sexto em 2025, detentor de Estrela Verde e o restaurante paulistano mais bem posicionado no 50 Best América Latina. Nos bares, saiu o Liquor Store, que era o segundo, e o Exímia, sétimo em 2025 e que em setembro daquele ano estreou na lista estendida do World’s 50 Best Bars, em 61º.
Do outro lado, houve saltos grandes: Ryo de 17º para 6º, Fifty Fifty de 17º para 6º, Kuromoon de 20º para 10º, Nelita de 11º para 3º. Movimentos de dez e onze posições em doze meses.
Nada disso é ilegítimo. Júri muda de opinião, casa melhora, casa piora. O ponto é outro: em 2025 dava para olhar o nome dos vinte jurados e formar juízo sobre de onde vinham essas escolhas. Em 2026 não dá. A auditoria da FIA confere a contagem dos votos, não o critério de quem votou.
O caso Mocotó
O Mocotó era o 9º melhor restaurante de São Paulo pelo Paladar em 2025. Em 2026 saiu da lista.
No mesmo prêmio, na mesma noite, o Mocotó ganhou o Prata da Casa — Josafá Menino da Silva, garçom da casa há 46 anos, cuja história contamos na semana passada.
A casa perdeu o lugar entre as melhores e ganhou o troféu humano. Não é contradição necessariamente: um prêmio de salão reconhece uma pessoa, não uma cozinha. Mas é uma coincidência que merece registro, porque o Mocotó tem Bib Gourmand do Michelin e é uma das casas mais conhecidas do país fora dele.
O que a lista conversa com o Michelin e com o 50 Best
Esta era a leitura que prometemos. O resultado é nítido: as réguas concordam no topo e param de concordar logo abaixo.
| # | Paladar 2026 | Michelin 2026 | 50 Best LatAm 2025 |
|---|---|---|---|
| 1 | Tuju | ⭐⭐⭐ + Estrela Verde | — |
| 2 | Evvai | ⭐⭐⭐ | — |
| 3 | Nelita | sem estrela nem Bib | — |
| 4 | Cepa | Bib Gourmand | 73º |
| 5 | Aiô | sem estrela nem Bib | — |
| 6 | Ryo | ⭐ | — |
| 7 | Maní | ⭐ | 67º |
| 8 | Aizomê | sem estrela nem Bib | — |
| 9 | Metzi | sem estrela nem Bib | 56º |
| 10 | Clandestina | Bib Gourmand | — |
Primeiro e segundo lugares são exatamente os dois únicos restaurantes três-estrelas do Brasil, ambos em São Paulo, ambos consagrados em abril deste ano. Nisso o Paladar e o Michelin estão de pleno acordo.
Dos oito restantes, apenas dois têm estrela: Ryo em 6º e Maní em 7º. Quatro não têm estrela nem Bib Gourmand. E Cepa e Clandestina têm Bib, que é o selo de boa refeição a preço moderado — reconhecimento real, mas de outra natureza.
O choque mais interessante é sobre cozinha japonesa. Dos treze restaurantes com uma estrela em São Paulo, nove são japoneses: Jun Sakamoto, Kan Suke, Kanoe, Kazuo, Kinoshita, Kuro, Murakami, Oizumi Sushi e Ryo. Na prática, o Michelin premia sushi acima de qualquer outra coisa na cidade. O Paladar tem dois japoneses em dez — Ryo e Aizomê —, e um deles o Michelin não decora.
Não é que uma régua esteja certa e a outra errada. São perguntas diferentes. O Michelin avalia cozinha com inspetores internacionais e critérios comparáveis entre países. O Paladar pergunta a jornalistas locais quais são os melhores endereços da cidade. A primeira pergunta favorece precisão técnica; a segunda favorece o que se come com prazer em São Paulo. Elas divergem porque medem coisas diferentes — e o leitor só entende o resultado quando sabe qual pergunta foi feita.
Uma ressalva de método: a lista do 50 Best usada acima é a de 2025, porque a edição de 2026 ainda não saiu. Está sinalizado para não repetir o erro de comparar anos diferentes sem avisar.
A Voz da Gastronomia é colunista do Paladar
O prêmio de Voz da Gastronomia foi para Patrícia Ferraz. Aqui é preciso registrar alguns fatos, todos públicos e verificáveis.
Patrícia Ferraz editou o caderno Paladar, do Estadão, por onze anos. É hoje colunista do Paladar, com duas colunas semanais — Prato do Dia, de receitas, e Por Aí, de restaurantes — e apresenta dois programas na Rádio Eldorado, também do Grupo Estado. E foi uma dos vinte jurados nomeados da edição de 2025 do próprio Prêmio Paladar.
Ou seja: o prêmio do Estadão deu o título de Voz da Gastronomia a uma jornalista que escreve semanalmente para o Estadão.
Três coisas precisam ser ditas com clareza.
A primeira é que o mérito dela não está em questão. São mais de vinte anos de carreira, passagem pela TV Mulher da Globo e pelo Jornal da Tarde, dez anos editando a revista Gula, e um livro — Cozinha Cheia de História — que ganhou o Gourmand Awards internacional em 2018. Numa categoria que premia jornalismo de gastronomia, ela é um nome óbvio. O universo de profissionais com esse currículo no Brasil não passa de algumas dezenas.
A segunda é que nada aqui indica irregularidade. Não sabemos, e não afirmamos, que ela tenha participado de qualquer votação sobre si mesma. Não há nenhum elemento nesse sentido, e não é isso que está sendo dito.
A terceira é onde está o problema de verdade: o leitor não tem como checar. Em 2025, com o júri publicado, qualquer pessoa podia ver que Patrícia Ferraz estava entre os jurados e tirar suas conclusões sobre o resultado daquele ano. Em 2026 o corpo de jurados é sigiloso. Não dá para saber quem votou, nem se quem recebeu está entre quem deu.
Foi exatamente esse o custo que apontamos na nota de quinta-feira, quando o sigilo era só uma linha no material de divulgação: júri com nome permite calibrar o resultado pelo repertório de quem votou; sem os nomes, resta confiar na instituição.
E não é caso isolado. Na semana passada, ao apurar a reportagem da Veja SP sobre o hotel Emiliano, encontramos o mesmo desenho: o elogio central ao chef era assinado por Arnaldo Lorençato, editor-executivo do guia Comer & Beber, sobre um chef finalista desse mesmo guia, com a data de lançamento do guia dentro da citação.
Dois dos maiores guias gastronômicos de São Paulo, na mesma quinzena, apoiados na autoridade de profissionais da própria casa. Num circuito pequeno isso é quase inevitável. O que não é inevitável é deixar de contar.
Vale dizer de onde falamos: aqui a régua é publicada — visita anônima, conta paga, nota de 1 a 5 facas, e quem assina sou eu. Não é melhor nem pior que um prêmio por júri. É outro instrumento, e a diferença fica visível justamente quando um deles recolhe os nomes.
O melhor da noite
Se há um prêmio nesta lista que merece mais atenção do que vai receber, é o de Gastronomia de Impacto, para a Gastronomia Periférica.
O projeto nasceu em 2012, em São Paulo, de oficinas de combate ao desperdício de alimentos feitas nas periferias da cidade — Jardim São Luís e Osasco —, por iniciativa do chef Edson Leite, que tinha voltado de sete anos trabalhando em Portugal. Em 2016 virou escola gratuita de gastronomia social.
Já formou cerca de 3 mil pessoas e está presente em periferias de 17 estados. Os números de quem a escola forma importam mais do que os do prêmio: 87% são mulheres e 78% são pessoas negras.
E o projeto não para no curso, que é onde quase toda formação social termina. Existem restaurantes-escola espalhados por São Paulo, um serviço de catering — o Rango — e o GP Trampo, de colocação profissional. Formar sem empregar é entregar um diploma e desejar sorte.
A proposta de emprego também merece registro: jornada de segunda a sexta, sem 12 horas, sem feriado obrigatório. Numa indústria que naturalizou o oposto, é o ponto mais estrutural de tudo isso — a jornada padrão de cozinha é justamente o que expulsa da profissão quem tem filho, quem mora longe, quem não pode voltar às duas da manhã.
Em 2025 o projeto foi um dos seis vencedores do Prêmio Pacto Contra a Fome, do Instituto Pacto Contra a Fome, com R$ 100 mil, pelo impacto em segurança alimentar e geração de renda.
Uma lista de melhores restaurantes é, por definição, um retrato de consumo caro. Abrir espaço para uma escola que forma cozinheiros de periferia é a decisão mais generosa do prêmio, e não deveria ficar em rodapé.
Um crédito que o prêmio merece
Para não ficar só na crítica, um registro a favor.
O Chef Revelação de 2025 foi para Caio Yokota e Victor Valadão, do Aiô. Um ano depois, o Aiô é o 5º melhor restaurante da cidade pela mesma lista. A categoria funcionou como indicador antecedente — o prêmio viu antes.
Vale anotar o nome de 2026 pelo mesmo motivo: Rhaiza Zanetti, do Miyabi. Voltamos a essa lista no ano que vem.
O que vamos publicar
O Aizomê, único restaurante estreante da lista, entra na fila de visita. Como sempre: sem aviso, conta paga, nota de 1 a 5 facas.
Nota factual. O gastronomizaê não participa do Prêmio Paladar, não tem relação com a organização e não foi convidado à cerimônia. A lista de premiados de 2026 foi informada por Luiz Lessa a partir da divulgação do prêmio. A lista de 2025 usada nas comparações vem de uma única reprodução publicada por veículo terceiro; buscamos confirmação independente e não a encontramos. As posições de 2025 citadas nesta nota devem ser lidas com essa ressalva, e serão corrigidas se a divulgação oficial do prêmio divergir. Os dados do Guia Michelin Rio & São Paulo 2026 foram conferidos em duas fontes independentes entre si. As posições do 50 Best são da edição de 2025 da lista da América Latina, a mais recente disponível. Os dados biográficos de Patrícia Ferraz, a composição do júri de 2025 e o histórico da Gastronomia Periférica vêm de fontes públicas. Nenhuma irregularidade é imputada a qualquer pessoa citada.